Arvorescer do amor – Capítulos 7 e 8

Capítulo 7

Uma maré ruim parecia se espraiar pela atual fase da vida de Cassio. Não bastasse a falta de sorte no amor, no trabalho as coisas também iam mal. Começou com a transferência, do depósito para uma das lojas, do gerente que lhe havia feito sonhar com a ida para o turno da manhã. Ademais, o encarregado que lhe pegava no pé achou por bem mudá-lo do setor de vinho, que tanto ele gostava, para o de perfumaria. Não mais pegaria peso, mas em compensação teria que fazer a coleta de várias miudezas.

O setor de perfumaria se distribuía por dois corredores. Um era o de Cassio, o outro, ficou com um funcionário terceirizado, o qual logo representou um problema para o rapaz. Cassio entrava cedo no depósito e ia pelos box recolhendo para si uma dada quantidade de gaiolas, então as levava para o seu novo setor. Quando chegava atrasado, o que sempre acontecia, o terceirizado ia pegar no corredor de Cassio as gaiolas que não conseguia mais encontrar disponíveis nos box.

– Ei, o que você pensa que está fazendo? – Cassio lançou quase do fim do corredor ao indivíduo no outro extremo, onde jaziam suas gaiolas.

Por serem desmontáveis, podia-se facilmente, de enfiada, dispor umas dez no pequeno espaço.

– Ué, como não tem mais carrinho em nenhum dos box, eu tenho que pegar aqui.

Cassio veio se aproximando dele.

– E quem disse que você tem que pegar dos meus?

– Olha, cara, não estou atrás de problema, só quero começar os trabalhos.

– Bacana você dizer isso metendo a mão grande nas ferramentas que separei para mim.

– Ah, dá um tempo!

O outro rapaz, antes que Cassio chegasse perto demais, levou três de suas dez gaiolas. Cassio não foi atrás, mas ergueu a voz:

– Que esta seja a primeira e última vez, meu chapa!

Mas, para a sua desagradável surpresa, na noite seguinte fez o mesmo o tal fulano. Tiveram ambos um pequeno bate boca, Cassio cerrou os punhos, mas se partisse para cima do outro, por ser funcionário da casa, receberia uma “justa causa”, enquanto seu desafeto, apenas seria remanejado.

Na noite que se seguiu àquela, amarrou suas gaiolas com tiras de plástico. Novamente viu o sujeito afrontá-lo, cortando o plástico com o estilete que usava para facilitar seu trabalho. Cassio também trazia um; servia-se dele para abrir certas caixas cujas unidades internas eram expedidas de modo fracionado. O rapaz se viu quase sem opções. Por motivos óbvios, não queria apresentar a queixa ao encarregado. Até chegou a desconfiar que o que o terceirizado fazia fosse a mando do homem amargo. Seu amigo, o ajudante do encarregado, não tinha o pulso necessário para resolver tais problemas. Mesmo porque, pelos quinze anos trabalhando à noite ao lado das turbulências familiares, o pobre infeliz já fazia uso de remédios para dormir. Não queria apresentar-lhe mais um problema.

Assim considerando, conseguiu encontrar uma solução. Comprou uma corrente e a levou para o trabalho, então passou a deixar fechadas suas gaiolas. Teve uma desagradável surpresa o terceirizado quando, naquela noite, como sempre, invadiu o setor vizinho para aprontar das suas. Foi obrigado a se contentar em voltar com as mãos vazias e a boca cheia de palavrões. Passados esses episódios, não tardou para que deixasse de trabalhar no setor ao lado do de Cassio e, por fim, ser removido do depósito.

Enquanto uns terceirizados se iam, outros se vinham. Vez por outra novos rostos eram vistos no depósito. Cassio chegou a ter um novo problema com um desses recém-chegados. Chamava-se Marcelo, e tinha um porte e uma fisionomia que suscitavam compaixão. Cassio o via indo e vindo, ora empurrando uma gaiola, ora puxando uma paleteira. Os novos terceirizados eram usados como ajudantes dos funcionários da casa, que empunhavam o coletor, fazendo a separação dos produtos, enquanto o ajudante ia atrás recolhendo. Numa noite, Marcelo foi pelo Robô incumbido de ajudar Cassio. Este estimulou entre ambos o coleguismo, e ao contrário do que os outros funcionários da casa costumavam fazer, entregava nas mãos do novato o coletor para que aprendesse a manipulá-lo e também descansasse.

Um dia Marcelo pediu-lhe vinte reais emprestados, ressaltando ter extrema necessidade da quantia. Nem precisava chegar a mencionar sua filha pequena adoentada, Cassio podia dispor do valor facilmente. No dia da paga, no entanto, Marcelo se furtou com uma desculpa. E tornou a fazer isso mais duas vezes, até que foi direcionado a outro setor; Cassio parou de lembrá-lo. Conversando com um outro colega, do qual Marcelo fora ajudante antes, descobriu que havia feito o mesmo com ele: devia-lhe cinquenta reais fazia mais de dois meses. O pior, no entanto, ainda estava por vir.

Na noite de entrega das cartelas de vale-transporte aos funcionários da casa, Cassio recebeu a sua, enrolou-a, dando-lhe a feição de um cilindro fino, e a guardou no bolso lateral da calça. A sala de controle estava cheia quando lá entrou para deixar o coletor. Era final de expediente. Ao chegar ao vestiário, não tinha mais a cartela de vales-transportes no bolso. Refez os passos tentando encontrá-la, quem sabe, no chão, e se viu novamente dentro da sala de controle. Falou com o operador, que se virou para ele com alarma e sugeriu que acionasse os apoios, a fim de que todos os que fossem saindo recebessem uma revista mais minuciosa. Assim o fez Cassio. Seus vales equivaliam a trezentos reais, e se não aparecessem teria ele que morrer nesse dinheiro para poder trabalhar no próximo mês.

Instaurou-se uma certa agitação no depósito. Os apoios trocavam informação pelo rádio. O chefe deles veio repassar alguns detalhes com Cassio. Perguntou quem eram os homens que estavam na salinha no momento que entrara lá. Cassio disse o nome de uns sete. Estavam a essa altura junto ao primeiro box. Outros funcionários, que ainda finalizavam suas tarefas, e certos curiosos estavam por perto. Quando Marcelo, um dos presentes, ouviu Cassio dizer o seu nome, mudou de figuração, avermelhou-se. Aproveitou o momento que o chefe dos apoios se afastou, repetindo os nomes no rádio, para se achegar de Cassio e chamar-lhe a um canto. Entraram no corredor onde Cassio trabalhava.

– Poxa, cara, por que tu fez toda essa confusão? Eu sei quem foi o cara que pegou teus vales. Mas ele só estava brincando.

– Brin-can-do! Quem é a pessoa?

– Não vou falar, tu vai ficar bolado com ela.

– Bolado eu já estou. Isso lá é brincadeira, meu chapa! Desembucha!

– Não vou falar.

Cassio esperou um instante.

– Foi você, né?

Marcelo confirmou com a cabeça.

– Tá no meu armário. Eu trago aqui para você, só que tu não pode me entregar. Eu não posso ser demitido, irmão!

Mas Marcelo não contava que o chefe dos apoios retornaria tão rápido. Ele surpreendeu ambos conspirando, e por muito que não tenha ouvido nada, suspeitou dos gestos ansiosos do terceirizado.

– Ei, Cassio, vem aqui comigo. Você também.

Marcelo seguiu ao lado de Cassio, implorando com sussurros que não o dedurasse. Quando entraram na salinha do chefe dos apoios, onde havia sobre a mesa um computador, o qual tinha acesso aos circuitos internos da empresa, o homem se virou para os dois, que entraram depois dele. Na sala também estava o encarregado.

– Eu ia começar a verificar a imagem das câmeras, mas já vi que nem vou precisar. Você já sabe quem foi, não sabe?

– Já! A pessoa vai me entregar, disse que era uma… brincadeira.

– Não existe esse tipo de brincadeira aqui. Você vai me dizer quem foi para que tomemos as providências.

– Eu não gostaria de prejudicar a pessoa.

– Então vai se prejudicar junto com ela, pois será tido como conivente. Você só tem uma escolha.

Cassio olhou para um Marcelo cabisbaixo.

– Foi ele. Ele pegou meus vales. Mas eu gostaria de interceder por ele…

– Cassio, fica quieto. Qual o seu nome?

– Marcelo.

– Marcelo, cadê os vales?

– No meu armário.

– Pega lá.

Foi-se o rapaz no seu andar apressado. O chefe dos apoios pediu para o que estava à frente do computador ficar de olho no Marcelo pelas câmeras e se virou para Cassio.

– Deixa eu te explicar uma coisa, pois você me parece o tipo ingênuo. A gente nunca deve interceder em favor de quem tenta nos prejudicar. Nunca! Se você acredita mesmo que foi apenas uma infeliz brincadeira, é porque ainda não conhece o suficiente das pessoas.  

Marcelo voltou com a cartela na mão. Entregou-a ao chefe dos apoios, que a pedira. Este último a conferiu, depois a deu a Cassio. Virou-se para o Marcelo.

– Infelizmente, por você ser terceirizado, não podemos te demitir, mas eu posso te proibir de voltar a pôr os pés aqui, no depósito. Então procure sua firma e peça para eles verem um outro lugar para onde te mandar, pois a parir de hoje, você não entra mais aqui.

Olhar para o infeliz humilhado flagelou o espírito de Cassio, porém, para além de uma ponta de pena suscitada, o fecho daquela situação lhe ensinou algo. Ou melhor, desensinou. Cassio cria sempre no melhor das pessoas; esta última experiência, sem entrar na conta das anteriores, dava prova de que agia mal. Dali em diante, pretendeu nunca mais voltar a ser traído pelo coração.

Passado o incidente, sua sorte finalmente mudou. O encarregado pé no saco foi transferido para o turno do dia e no lugar dele entrou um gestor vindo de uma das lojas. Simpatizou de imediato com Cassio, vendo nele um grande potencial. E não tardou um mês para tirá-lo da separação dos produtos e colocá-lo no setor de faturamento. Ali, junto de mais outros dois, Cassio começou a cuidar da emissão das notas fiscais, sem as quais os caminhões, que saíam do depósito em direção às lojas, não poderiam circular. Agora ele se sentia um quase magnata, trabalhando num escritório, de frente para um computador e ao pé do ar-condicionado. Não o incomodava nem mesmo o fato de passar a largar entre meia e uma hora depois do que largava antes.

No entanto, outra grata surpresa o alcançou pouquíssimos meses depois. O setor de pagamentos da empresa, que funcionava naquele mesmo complexo, estava precisando repor um funcionário. O setor de RH disparou um e-mail indagando ao gestor da noite se haveria no seu quadro alguém para indicação. Este, então, após saber do interesse de Cassio em ir para o turno da manhã, replicou o e-mail indicando-o. E foi assim que o rapaz encerrou a vida de notívago.

Capítulo 8

Rúbia se havia permitido ficar tão só um dia ou dois chateada por tudo que se passara com Cassio. Sua chateação, porém, no lugar de ser por lhe reconhecer razão, se devia ao atrevimento do rapaz, ao modo imperial como lhe expusera suas ideias a seu respeito. No seu entender, agira ela corretamente, não enxergava nada do que se envergonhar. Nunca lhe propusera verbalmente algo mais sério, o estreitamento daquele eventual relacionamento. Se assim ele havia depreendido de algum gesto seu, que culpasse a si por ser tão conservador.

Foram essas mais ou menos as palavras que veio a usar ao dar depoimento do ocorrido à sua amiga Samira. Esta, por qualquer razão pessoal, nutria profunda irritação por Cassio, mesmo não o conhecendo pessoalmente. Quanto a não ter mais de ouvir o seu nome dos lábios de Rúbia, recebeu-o com um tal prazer e disso não fez segredo. Samira esperava que o havido com o tal garoto alto do curso estragasse pelo menos a semana de Rúbia, a exemplo do que presenciara antes em situações parecidas, mas, para surpresa sua, testemunhou a amiga animando-se rapidamente para voltar às paqueras e às saídas para a noite.

Já na primeira balada Rúbia beijou três bocas e forneceu à meia dúzia de rapazes o seu contato. Estava de volta, finalmente, após alguns poucos meses experimentando um estilo de vida mais restritivo. No seu primeiro mês de toda desimpedida ficou com mais caras do que os dedos que há nas mãos conseguem contar. Via um num dia, no outro, organizando-se bem, conseguia ficar até com dois. Não raro enrolava-se, combinando com um e outro um mesmo dia e horário para o encontro, geralmente numa dessas farras que dão às moças entrada franca. Então, ali mesmo na hora, pelo celular, explicava a um dos requerentes que ficaria com o outro até uma certa hora, depois daria nele um perdido, então poderiam se encontrar e juntos ficarem pelo resto da noite. Teve assim de começar a se organizar numa agenda. Diante de tanta badalação, às vezes lhe vinha um enfado e decidia ficar quietinha no ninho, segundo gostava de repetir. No entanto, se algum dos paqueras conseguisse, pelo telefone, mudar seu estado de espírito, abria-lhe uma concessão. Tendo ele carro, tanto melhor, pois a poderia pegar em casa e a levar para alguma rua pouco movimentada, onde a temperatura dentro do veículo costumava subir bastante.

Claro que, mesmo advertida de que não deveria se apegar a ninguém, vez por outra Rúbia se empolgava demais com um dos ficantes, o qual, tendo uma fila de moças esperando uma hora na sua apertada agenda, descartava-a sem cerimônias. Nesses momentos, sentindo-se usada e ultrajada, maquiava-se e vestia-se com ainda mais capricho para o pecado e recaía na gandaia a fim de desafogar o íntimo.

Foi nesse estado de coisas que uma ligação bastante inesperada a surpreendeu. Achava-se entediada, o corpo estirado sobre o sofá e os olhos postos na tevê, indiferente ao mundo e com raiva de todos os homens. Deixou que o celular estridulasse. O visor do flip do aparelho mostrava outro de tantos números desconhecidos. Ela costumava nunca atender de primeira, deixava chamar duas, três vezes. Aquela ligação, porém, depois que caiu, não foi retornada. Esperou ela cinco, dez, trinta minutos, e vendo crescer a curiosidade, decidiu-se por ligar de volta.

– Olá! Você me ligou.

Oi, Rúbia, como tem passado?

– Quem fala?

É o Cassio.

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