Arvorescer do amor – Capítulos 9 e 10

Capítulo 9

Cassio agora se levantava com as estrelas. Pegava lotação e, geralmente, viajava em pé, espremido entre tantos outros madrugadores. Na ida para o trabalho, encarava mais de uma hora de viagem, não mais os vinte e cinco minutos. E na volta, quando muito pior era o engarrafamento, tinha de suportar mais de duas horas. Tamanho alívio era encontrar um assento vazio. Não admira que a nova rotina continuasse o deixando estropiado, se bem que menos que a anterior.

Na nova repartição, os novos colegas o inteiraram sobre como funcionavam as coisas por ali. Claro que falavam das mulheres da empresa. Casadas ou não, com o proceder correto, conseguiria sair com algumas delas. Cassio, incrédulo de início, tanto mais quando lhe apontavam uma ou outra, cheia de pose desfilando pelos corredores, e sussurravam-lhe alguma história sórdida a seu respeito, passava da negação à crença à medida que testemunhava o comportamento para com ele de algumas colegas de outros setores que lhe vinham, esporadicamente, pedir favores que somente alguém com o seu acesso ao sistema poderia atender. E as histórias continuavam povoando o seu imaginário, fossem já antigas ou mesmo novas. Era comum começar a circular alguma logo na segunda-feira, após um desses finais de semana que precedem ao adiantamento e ao pagamento do suado estipêndio.

No entanto, Cassio não se sentia de todo parte daquele mundo; pensava fora da caixa, alguns diriam. Não se deixar engraçar por mulheres casadas era o seu evangelho. Para elas, procurava ser um eunuco, mesmo que as tais se insinuassem com tanto descaro que os colegas o constrangessem à ação. Era irredutível, e jamais, mesmo no mais profundo do seu íntimo, cogitou aventurar-se.

Como agora dispunha de todo o final de semana, passou a frequentar os amigos quase todos os sábados. Um deles, um roqueiro de gosto bem duvidoso a quem chamavam Johnny e que tinha verdadeira adoração por Cassio, sempre insistia para que dormisse aos sábados em sua casa. A namorada de Johnny também o adorava. Às vezes, parecia que até demais. Certa feita, quando Cassio acompanhou o casal até a casa de Luna – a namorada –, acomodado no sofá da sala, presenciou a mãe da moça dizer assim a Johnny: “Ele vai tirar ela de você”. Tranquilamente, respondeu o cabeludo: “neste eu confio”. A cena não causou tanto espanto à Cassio porque este já havia sido advertido de que a velha não estava regulando muito bem fazia algum tempo. No entanto, a esclerosada pusera para fora aquela sentença porque a filha lhe andava fazendo, com cada vez mais frequência, reclamações acerca do namorado insensível. Johnny era o tipo que tinha o desplante de olhar deslavadamente para outras mulheres, mesmo enquanto caminhava de mãos dadas à namorada. Luna, com vinte e cinco anos, tinha já uma filha de sete anos do primeiro casamento. Johnny não suportava a menina, e nem escondia o fato. Não admirava que fosse tão mal recebido naquela casa. Não sendo o bastante, criticava com notável insensibilidade o corpo de Luna. Dizia que ela estava muito caída e flácida para a sua idade. Assim as coisas entre eles seguiam esfriando, até que num dos sábados, ao chegar à casa de Johnny, Cassio foi recebido com a novidade de que o namoro estava encerrado.

– Você vai fazer um favor para mim – disse-lhe Johnny. – Vai ligar para ela e chamar para sair.

– Como! Você quer que eu saia com a sua ex? Tá chapado!

– Eu preciso de algum amigo que sonde os pensamentos dela e que melhore minha imagem para ela. Você é o cara perfeito para isso. Eu sei que ela vai voltar para mim, é uma questão de tempo. Só que é sempre benvinda aquela ajudinha que acelera as coisas.

Cassio resistiu até onde deu, por fim transigiu. Gravou no celular o contato de Luna e naquele mesmo final de semana lhe telefonou. Combinaram um passeio no shopping de sua cidade na noite de terça. Luna desabafou, contou coisas a respeito de sua intimidade com Johnny que demonstravam profunda indelicadeza da parte do rapaz. Diante delas, Cassio, que tinha a missão de fazer a defesa do amigo, quase se acovardou. Tentou mesmo com as poucas chances de sucesso, e foi rechaçado, com comedimento, porém firmeza. Luna repetia que agora estava livre para um novo relacionamento, e que queria um homem delicado, cavalheiro, responsável e trabalhador, assim como Cassio. Já na segunda vez que ouviu de seus lábios essas palavras textualmente, convenceu-se de que a moça se insinuava para ele. Assim avançou a noite, com ela tentando se aproximar, devorando-o com o olhar e buscando sua mão, e ele se esquivando.

No fim da noite, quando a acompanhou até o ponto de ônibus, em face daqueles olhos que o desafiavam, ao se despedir, deixou que seus lábios se encontrassem. Nunca um beijo lhe havia causado tamanha repulsa. No sábado seguinte, ignorante de que o amigo já estava a par do ocorrido e havia espalhado para os outros que assim que o visse o arrebentaria de tanta porrada, rumou direto para casa deste. Percebeu o ambiente pesado na casa, as irmãs de Johnny atipicamente caladas. O roqueiro tinha dado um pulo no mercado, quando chegou e deu de rosto com Cassio, com a cara fechada chamou-o de parte, apenas fazendo-lhe sinal.

– Tem alguma coisa para me contar? – falou mal mexendo os lábios.

Cassio logo percebeu do que se tratava.

– Ela te disse, não foi?

Johnny fez que sim com a cabeça.

Cassio respirou fundo; compreendia enfim toda a trama.

– Ela me usou para se vingar de você. Se jogou para mim até eu me ver obrigado a, pelo menos, me despedir dela com um beijo, e aí correu para te contar.

Os dois conversaram e passaram a história a limpo. Concluíram não valer a pena desfazer uma amizade de anos pelo que se havia passado. Então saíram para bater perna, como era de estilo. Os amigos reunidos na casa de um outro, quando o viram chegarem juntos, foram tomados de susto. Passada a impressão inicial, a gozação rolou solta. Caçoavam de Johnny dizendo que ele amarelou na hora de cair dentro com Cassio, e a esse chamavam de papa-tudo, o perigoso. Mas mesmo tudo virando motivo de piada no fim, Cassio, que tinha grande consideração por Luna, acolheu uma ponta de rancor. Afinal, as mulheres podiam ser tão baixas quanto aos homens.

Sábado pela manhã, no curso, o qual estava quase sendo concluído, encontrou-se com o professor Natan. Fazia alguns meses não o via.

– Cassio, meu garoto, você tá ótimo!

– Valeu! Eu agora trabalho durante o dia. E você? Conseguiu finalmente se acertar com a Rúbia?

– Não! Eu não a vejo desde aquela época. Vocês também pararam de se ver, né?

– Sim, sim.

– Liga para ela?!

– O telefone que ela me deu não funciona mais.

– Quer o número do celular?

Cassio hesitou em responder.

– Anota aí – disse Natan, e Cassio obedeceu. – Liga para ela.

Despediram-se. Naquela tarde, deitado na cama e girando o celular na mão, em luta contra a indecisão, Cassio levou meia hora até se revolver por telefonar.

Capítulo 10

A tarde estava agradável. O Sol brilhava em toda a sua luz, mas uma brisa refrescante percorria as ruas. Cassio havia acabado de chegar à frente do prédio do curso, e viu Rúbia, esvoaçante, aproximar-se pouco depois, o amarelo do seu vestido impecável. Trazia nos lábios um batom rosa-choque “muito cheguei”. Trocaram beijos formais. Ali, no mesmo banco onde se viram pela última vez e onde Cassio rasgara o verbo, romperam uma rasgação de seda. Não revisitaram antigas mágoas; simplesmente silenciaram-se acerca do recente passado.

Cassio, reparando em toda ela, elogiou o ouro de seus cabelos com anéis que resplandecia o sol. De volta, ouviu que seu porte estava mais atlético. Com efeito, pelo rapaz ter trocado a natação pela musculação, os torneios dos seus braços chamavam agora mais a atenção.

– E então, o que tem feito na minha ausência? – achou por bem dar voz ao pensamento que mais ecoara em sua mente, nos dias que sucederam à morte de sua paixão evanescente por aquela moça.

– Nada que mereça menção. A vida tem estado uma chatice. E você?

– Trabalhando, estudando. E me exercitando, como pode ver.

– Sentiu minha falta?

– Sim.

Mesmo tendo Rúbia exalado uma profunda decepção em seu peito, a verdade é que se pegava pensando nela em várias ocasiões.

 – Não vai querer saber se senti a sua?

– Eu sei que sim.

– Confiante você, hem?

– É que tudo que vai pelo coração ecoa nos gestos.

Rúbia sorriu quase deliciada.

– Uau, você continua um ótimo frasista.

– Antigos hábitos…

Deixou no ar a conclusão da sentença.

Como não marcasse o encontro naquele lugar apenas por gosto, pediu que o esperasse por um momento que ele iria subir ao curso, fazer o pagamento da última parcela do carnê. Saiu, e quando voltou, mais rápido que o esperado, surpreendeu Rúbia com um cigarro aceso nos lábios.

– Desde quando você fuma?

– Comecei faz um ou dois meses. Ajuda a acalmar.

Quase que Cassio abriu um discurso antitabagista. Em lugar disso, preferiu o silêncio. Rúbia, que aspirava lentamente a fumaça nicotínica, olhou de esguelha para ele, estudando sua expressão de perfil. Dali a poucos segundos apagou o cigarro, pôs um chiclete na boca, pegou o rapaz pela mão e o levou dali. Foram dar no shopping.

– Quer comer alguma coisa? – perguntou ele logo que puseram os pés no térreo.

– Quero outra coisa.

A jovem o conduziu até um esconso, onde se desenhava uma porta, na qual se lia “saída de emergência”. Empurrou-a, revelando uma escadaria que subia espiralando. Venceram-na até o topo, onde se depararam com um casal de adolescentes num amasso.

– Nós já estamos descendo – disse o jovenzinho, quando os viu dando meia volta. – Não dá pra ficar muito tempo aqui. Tá muito quente.

O casalzinho passou por eles. Rúbia e Cassio terminaram de subir os últimos lances de escada. Cassio, que nunca estivera ali, viu-se como que num beco sem saída, literalmente. Seria de supor que houvesse alguma porta ali que abrisse para o terraço. Ao invés disso, a escada simplesmente terminava num pequeno patamar, sem saída para qualquer lugar. Rúbia estribou-se ao parapeito e puxou Cassio para si, com raiva e atrevimento. Beijava-o e mordia-o. As carícias iam quentes, mas quentes do que as primeiras que compartilharam. Rúbia revelou-se muito permissiva, dando a Cassio ocasião de explorar seu corpo com as mãos. Dizia-lhe aos ouvidos que adorava a sua pegada. Ao fim de quinze minutos, no entanto, a quentura ambiente os expulsou. Não obstante, com as chamas reavivadas, Cassio, que agora se sabia diante de uma jovem mulher que leva consigo desejos inconfessáveis, resolveu exumar aquele antigo romance fracassado.

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