Arvorescer do amor – Capítulos 11 e 12

Capítulo 11

Voltaram assim a se ver, Cassio e Rúbia. Para aquele, os encontros ficavam difíceis durante os dias úteis, então o casal saía aos finais de semana, limitando-se aos telefonemas de segunda à sexta. Como da vez anterior, Rúbia não dava nenhuma posição muito clara a Cassio acerca do estatuto daquela relação, do que esperava dela. E ele, que antes a havia posto entre as estrelas, tinha a firme convicção de que nunca mais tornaria a fazê-lo. Compreendia bem que de Rúbia só poderia esperar, seguramente, diversão; porém seu desejo, motivado por sua índole romanesca, não era seguir essa estrada. Estava atento, e se tivesse alguma chance, por mínima que fosse, de ter o amor daquela moça bonita e de muita exuberância, aproveitá-la-ia.

Em que pese o grande interesse do rapaz em cimentar os laços de confiança entre ambos, cumpre dizer que Rúbia não agia na mesma direção. Quando juntos num piquenique, praça de alimentação ou passeio avulso, e o celular da moça tocava, tratava-se sempre de algum rapaz, o qual ela atendia alegando não poder conversar naquele momento. Pedia para ligar mais tarde, e quando encerrava a ligação, voltava-se para Cassio e afirmava ser apenas um amigo ou colega, mesmo que ele não o perguntasse. Chegou mesmo a mostrar para Cassio, em seu celular, a foto de um desses moços bonitões que a perseguia com pedido de namoro. Vendo-a, não pôde ele deixar de considerar o porquê de ter ela lhe mostrado. Vontade de exaltação própria? Seria aquele quem ligava o tempo todo? Ficaria ela com ele ao longo da semana? Dentro daquela situação incerta, aprendia a domar emoções como o ciúme e até mesmo o desejo de amar. Ficava bom a cada dia no papel que encenava. Já não fazia a apoteose de Rúbia como antes, embora lhe enxergasse ainda a mesma beleza. E desse seu gesto a moça tinha falta, cobrando-o às vezes com sutilezas. No entanto, como era de uma atenção elogiável, Cassio sempre lhe observava os detalhes, como a mudança na cor do esmalte de unha ou do batom, alterações no penteado, na fragrância do perfume, algum anel, brinco ou cordão novos.

Sentindo-se confrontada pela própria consciência vez por outra, Rúbia dentro em si mesma reconhecia ao rapaz um grande cavalheirismo. Tinha-o na conta de um homem direito, a pessoa certa. No entanto, sua atração era maior pelos caras errados. A vida bandida exercia qualquer coisa de mais fascinante sobre suas emoções. Mesmo assim, decidiu ir tocando os encontros com Cassio. Sua companhia era agradabilíssima, dada a sua inteligência e seu humor. Além de que, ele a não cobrava, não urgia com ela para dar explicações de qualquer natureza, a exemplo dos outros caras possessivos que Rúbia conhecia muito bem.

Por essa mesma época, uma novata no trabalho passou a ter para Cassio os mais intensos olhares. Era casada, porém, com um argentino quinze anos mais velho. Vivera com ele no seu país por cinco anos, e agora estava de volta ao Brasil. Chamava Suzy, tinha seus vinte e oito anos, e o preto dos cabelos exaltava o branco de sua pele. Seus atrativos a faziam figurar entre as mais bonitas da empresa, e não tardou para que os urubus começassem a sobrevoá-la. No entanto, em toda a sua discrição e charme de porte, Cassio era quem a encantava. O rapaz não era cego aos sentimentos da moça, mas fingia-o ser. Trabalhavam próximos, em repartições contíguas. A empresa passara por reforma fazia pouco, e quase todos os painéis, que faziam a divisão entre os setores, foram substituídos por divisórias de meia altura. Assim, bastava à moça levantar-se de sua cadeira ou erguer um pouco a cabeça que a figura de Cassio se anunciava a seus olhos. A cada ida que Suzy fazia até a impressora, estrategicamente alocada a um canto para servir a quatro setores – o de pagamentos, o de recebimentos, o de lançamento de notas fiscais e o de conferência das mesmas –, aproveitava para apreciar as suaves feições do rapaz, seu ombro robusto, e tremia ligeiramente de um misto de prazer e receio quando seus olhares se encontravam. Não obstante, sustentava o olhar, oferecendo-lhe um sorriso. Cassio sorria de volta, tornando calmamente a olhar para a tela do computador. A simpática indiferença do moço, no lugar de fenecer seu interesse por ele, fortificava-o numa base mais sólida. Afinal, aquele era um espécime dos homens que excedia em hombridade os seus pares, de uma louvável estrutura firme, um ético que destoava fortemente da leviandade percebida mesmo nos que portavam uma aliança no dedo. Esse era o segundo motivo por que Suzy não conseguia desligar de Cassio: além de desejá-lo, admirava-o. Via nele um modelo a ser seguido pelos demais, ao mesmo tempo em que se reconhecia fraca e tomada pela vontade de pecar com o bom e belo jovem.

Enquanto uma o tinha em grande estima, a outra, embora sempre destacasse seu bom-mocismo, considerava-o um cara de hábitos estreitos, bem prosaico. Dizia que ainda o arrastaria para uma noitada. Pudesse ela moldá-lo, fá-lo-ia mais descolado, um tanto desbocado, mais atrevido, alguém por quem deveria se morder de ciúmes. Contrariamente a isso, Cassio jamais falava de outras garotas, relacionamentos anteriores, não atendia a ligações suspeitas; oferecia-lhe uma relação serena. Afora os dias de trabalho, colocava-se sempre à sua disposição. Tendo por certo ser a dona de toda a estimação do rapaz, Rúbia já começava a ver naqueles encontros um quê de sem-gracice. Cassio não avançava os sinais, não tomava a iniciativa de propor-lhe algum final de semana entre quatro paredes. Ele bem o desejava, mas julgava muito cedo ainda. Estavam juntos fazia apenas um mês, e por muito que a tocasse agora com mais intimidade, a educação cristã debaixo da qual fora criado impunha-lhe algumas barreiras difíceis de ultrapassar. Sexo era uma. Não saía admitindo por aí como quem ergue uma bandeira, aliás, muito raramente falava a respeito, mas no alto de suas duas décadas de vida ainda conservava-se virgíneo nas experiências carnais. Mesmo sem jamais o ter perguntado, sabia que Rúbia não compartilhava do mesmo estatuto virginal. E ainda que fosse com ela que esperasse “fazer-se homem”, descansava na virtude da paciência.

Em meio a essa tal circunstância, justo no dia em que tencionava estreitar mais a intimidade do casal, vislumbrou um distanciamento da parte de Rúbia. Haviam acabado de comer um hambúrguer e estavam caminhando pelo shopping. Rúbia, a qual lhe parecia ligeiramente aborrecida até ali, de repente, como se renovasse o ânimo, deixou-o de lado e correu até um rapaz, à frente da vitrine de uma loja de roupas. Estava cercado por umas garotas. Sem pedir licença, Rúbia passou por elas, puxou o pescoço do rapaz e imprimiu-lhe na face um beijo. Depois voltou para Cassio, que permanecera parado, estudando a cena, e, pegando-lhe a mão, retomou a caminhada.

– Isso foi mesmo necessário? – perguntou no mesmo tom de voz que usara a tarde inteira.

– É meu amigo, não posso mais cumprimentar?

– Claro que pode. Mas a não ser que ele seja um artista, aposto que não estava esperando uma saudação tão efusiva assim.

– Crítica registrada.

Após darem umas voltas, resolveram encerrar o passeio. Instalara-se entre eles um clima chato. Quando passavam pelo mesmo lugar do ocorrido, Rúbia repetiu a cena. Correu até o rapaz, que desta vez estava sozinho à entrada da loja, e despediu-se com novo beijo e um abraço.

Quando veio pegar de volta a mão de Cassio, este a enfiou no bolso.

– Acabo de me dar conta de que você gosta muito de exibições.

Sem embargo de manter uma voz calma, o estranho episódio havia estrangulado sua paz. Fez-se meditativo. Deixou a garota no ponto de ônibus, e quando tomou a condução para casa, acessou a agenda do celular e excluiu o número de Rúbia. Nem por ela, nem por outra, despiria o amor-próprio.

Capítulo 12

Já se havia passado um ano desde que Cassio se matriculara no curso. Agora havia às mãos o diploma. Pensou no quanto aquela pequena realização lhe tinha aberto os horizontes, permitido a ele maiores chances.

No último ano muitas coisas mudaram de contorno a seus olhos. Por exemplo, ele, que não nutria o hábito da leitura, fazia uma semana que havia ido até a última página de um romance, de cujas páginas saltavam filosóficas reflexões, as quais ainda esvoaçavam no seu pensamento. Sentia arder no cérebro a chama transformadora de uma boa leitura. Percebia na própria alma maior profundidade. Terminara de percorrer duas semanas sem qualquer contato com Rúbia e se sentia muito em paz com isso. Tampouco ela o procurou. No momento, seu objetivo imediato era continuar sua história de amor com os livros, que lhe preenchiam mais ricamente o tempo.

No entanto, o novo hábito inaugurou nele o impulso por debater ideias. Ocorre que é preciso interlocutores para tanto, e as pessoas de seu círculo próximo não compartilhavam da mesma empolgação. Sentiu assim a necessidade de expandir sua esfera de amigos. Viu, então, uma oportunidade. Sua mãe, uma missionária evangélica, recebia em casa com frequência alguns novos convertidos. Geralmente eram mulheres mais velhas precisando ser discipuladas. Uma delas, que já frequentava sua casa fazia quase um mês, apareceu por lá numa bela manhã de domingo acompanhada da filha. A jovem tinha seus 18 anos e, como a mãe, era uma nova convertida ao evangelho. Dona Amparo, a mãe de Cassio, que se orgulhava do filho e sempre o apresentava de peito estufado às visitas, honrou a tradição mais uma vez e fez que a moça olhasse bem para o belo rapaz diante de si. Mesmo meio desconcertado por ser esnobado a estranhos como se fosse um cavalo de corrida, cumprimentou-a sorridente. Chamava-se Cora a tal moça. Não era um exemplo de beleza, mas parecia esconder alguma substância; bastava saber procurar.

Depois desse dia, Amparo passou a sugerir ao filho que voltasse para os caminhos do Senhor. Talvez, na igreja, houvesse alguma jovem especial, da parte de Deus, a sua espera. Quem sabe a Cora e ele pudessem namorar? A moça não tinha essas pretensões no momento, repetia ela no seu jeito tímido, mas quando se abrisse à possibilidade, o pretendente deveria ser cheio de santidade. O pensamento de retroagir a sua antiga fé apenas passou de raspão pela cabeça de Cassio. Amava demais, no entanto, a estatuto de seu espírito livre. Continuaria profundo admirador de Cristo Jesus, o maior espírito humanitário da história, no seu entender. Permaneceria um praticante de seus preceitos morais, porém mantendo-se fora do cárcere da religião e resguardando sua paixão à abertura de ideias.

Sueli, uma amiga cristã da mãe de Cassio e a mais jovial dentre todas, fazia pública sua admiração pelas convicções do moço, embora profetizasse que um dia seria ele um pastor de multidões, grande líder evangélico. Cassio apenas se ria, abundando simpatia. O que ele não desconfiava é que Sueli era a mãe de uma adolescente de beleza surpreendente. Atendia por Evelyn a bela moça. A primeira vez que passou na casa de Amparo, duas semanas depois de Cora estar lá, causou tanto brilho que fez Cassio enxergar a luz de melhores dias. À primeira vista, Evelyn anunciava-se perfeita com sua esplêndida pele marmórea. Na varanda da casa, como de estilo, enquanto Amparo rezava a Bíblia na companhia da jovem, da sala, Cassio lançava olhares furtivos em direção da pequena. Tinha apenas 17 anos recém-completos; ele já navegava os vinte e um. Ficou pensando numa maneira de se aproximar. Teve uma luz quando descobriu que Evelyn e Cora eram vizinhas e muito amigas.

Estava sendo anunciado numa rádio evangélica um grande espetáculo de Natal, onde ocorreria a gravação de um DVD, numa importante casa de shows. Os ingressos já estavam à venda. Seu preço antecipado eram 12 reais. Cassio pediu que sua mãe sondasse junto à mãe de Cora se esta última teria interesse em ir com ele. Inteirou que podia convidar a Evelyn, pois tinha ele dois ingressos extras para o show. A resposta foi positiva. Por intermédio da mãe, Cora comunicou que tanto ela quanto Evelyn ficariam felizes em poder assistir ao show com ele. Correu então o rapaz ao shopping, onde se locava uma livraria gospel a qual era um dos postos de venda dos ingressos, e adquiriu três. Deixando o local, cruzou com Rúbia. Esta o abraçou e beijou-lhe a face, como se nenhum motivo de mal-estar houvesse entre ambos. Curiosamente, Rúbia, que andava ao léu pelo shopping, convidou-o a uma volta. Aceitando ele, assistiu passivamente à moça tomando-lhe pela mão como se fosse um namorado seu.

Rúbia via-o com uma face mais bonita, e isso lhe causou grande impressão. Perguntou se estava namorando, no que Cassio respondeu a verdade. Sem ser perguntada a respeito, informou que também continuava solteira. Dali a uns dez minutos, ambos cruzaram com um desconhecido para Cassio, o qual parou e, como se não houvesse o rapaz bem ali com Rúbia, iniciou com esta uma conversa sobre um curso técnico que faziam juntos.

– Minha aula é daqui a pouco, eu tenho que ir agora. Você me acompanha até lá?

– Bom… é claro.

Saíram os três do shopping, e embora de mãos dadas estivessem Cassio e Rúbia, mal trocaram uma palavra. A garota, perdida de riso, voltava-se totalmente para o outro, que fazia o tipo metido e parecia dispensar certo esforço para ignorar a presença do bom-moço. Andava com uma dada pose, tinha os modos afetados e contava muitas vantagens, fazendo uso de linguajar escatológico. Ver-se preso àquela situação aborreceu Cassio de tal maneira que não suportou continuar demonstrando sua calma estudada. Depois da quarta ou quinta vulgaridade que o estranhou vomitou, arrancando gargalhadas de Rúbia, estacou Cassio pedindo licença.

– Escuta aqui –, disse se voltando para a garota e se desprendendo dela. – Eu desconhecia esse seu gosto por baixaria. Jura que essas babaquices estão te divertindo? Eu estou ouvindo esse comédia há três minutos e já fiquei completamente enojado.

– Vai ficar me esculachando, cumpade? – revidou o outro.

– Você cala essa boca imunda porque agora eu estou falando – vociferou Cassio espetando no ar o dedo indicador.

O estranho estremeceu adivinhando o tamanho da raiva que lhe era devotada.

– Olha para você – voltou-se novamente para uma Rúbia sem ação. – Parece uma perdida.

Três segundos após, deixando-lhe apenas um olhar desapontado, virou-lhe as costas e partiu. Pela primeira vez chegou ao ponto de execrar uma mulher de quem tanto havia gostado.

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