Arvorescer do amor – Capítulos 13, 14 e 15

Capítulo 13

O dia finalmente chegou. O show aconteceria das seis às oito da noite. Cassio se havia levantado cedo, barbeado e saiu para cortar o cabelo. Quando voltou para casa, recebeu uma notícia que o jogou em desânimo. Cora jazia adoentada, havia comido algo que não lhe caíra bem e sofria com os efeitos de uma intoxicação alimentar. A última esperança de Cassio recaiu sobre Evelyn, aliás, o real objeto de todo o seu interesse. Esta, no entanto, liquidou suas expectativas finais transmitindo, pela voz da mãe, suas desculpas por ter, de última hora, um imprevisto.

Dando voltas ao miolo, Cassio, de todo amargurado, chegou mesmo a cogitar estender o convite à Rúbia. Achara no celular um SMS antigo enviado por ela e do qual constava o seu número de celular. Em vez disso, excluiu a mensagem de texto. No horário, aprontou-se e se foi. Encontrou no espaço pessoas feito moscas, e uma, entre tantas, sobressaía. Trabalhando na segurança do evento, enfiado num terno preto, lá estava o espaçoso professor Natan. As mão unidas à frente do corpo, numa postura de vigilância, o homem cheio sorriu discretamente para o aluno. Cumprimentaram-se.

– Então é verdade que o senhor tem vários ofícios.

– Veio curtir sozinho?

– Se eu te dissesse o que me aconteceu… Ontem eu tinha duas garotas para vir comigo, hoje acabei com dois ingressos sobrando. Dinheiro jogado fora.

– Você arruma fácil alguém para comprar aqui. A bilheteria acabou de anunciar que os ingressos esgotaram.

Cassio olhou em volta, divisando aquele grande pátio.

– Bom, se você me ajudar a encontrar um comprador, eu racho contigo a grana.

Nesse instante, vinha passando um jovem casal. Com seu olhar treinado, Natan conseguiu ler o desânimo nos dois. Sinalizou para eles.

– Vocês já têm o ingresso?

– Não – respondeu o rapaz, de repente um brilho de esperança tomando conta do seu olhar.

Natan limitou-se a apontar para Cassio, a seu lado.

– Acho que o meu azar se tornou a sua sorte, companheiro. Tenho exatamente dois ingressos aqui.

Tirou-os do bolso.

– Quanto quer por eles?

– Qual era o preço ali, na bilheteria?

– Quinze reais.

Cassio refletiu.

– Quer saber? Me dá vinte e leva os dois.

O rapaz rapidamente sacou a carteira.

– Oh, abençoado, muito obrigado mesmo!

O casal saiu refeito na alegria. Cassio entregou dez reais a Natan.

– Agora vou parar de atrapalhar sua atenção. É sempre bom te ver, meu amigo.

– Bom show, meu garoto.

Os portões acabavam de ser abertos. Cassio se infiltrou entre as pessoas e se introduziu no grande salão. Achou um bom lugar e, sozinho em meio à multidão, sentiu-se surpreendentemente bem. Já havia deixado algumas vezes de viajar para certos lugares e fazer passeios de um dia por não dispor de companhia, mas aquela experiência positiva lhe apresentaria novas possibilidades.

Capítulo 14

Uma semana depois, na empresa em que Cassio trabalhava, foi dada uma festa para comemorar o fim do ano, como acontecia desde a sua fundação. Embora trabalhasse ali fazia dois anos, aquela seria a primeira participação de Cassio. No ano anterior, quando ainda trabalhava de noite, não se havia empolgado em chegar mais cedo para festejar e depois iniciar o turno de trabalho. Dessa vez, como a festa começava logo ao fim do turno da dia, animou-se.

Estavam lá alguns ex-colegas de setor. Cassio reviu muitos. Abraçou-os e posou para muitas fotos com eles. Um DJ, sobre um pequeno palco improvisado, tocava as músicas mais bombadas do momento e, depois de algumas biritas, uma legião se esbaldava na pista de dança. Alguns mais discretos, a um canto reservado, tentavam tirar a sorte grande. Os que tinham seus carros no estacionamento se serviam deles em vez de dirigir até algum motel. O presidente da firma também tomava parte na festa. Funcionárias disputavam para dançar com ele. Cassio ainda se mantinha longe da pista. Estivera andando, conversando com as pessoas, atacando os petiscos. Quando abeirou-se de onde todos balançavam os ossos, viu Suzy com a cunhada. Com elas estava Romão, um sujeito boa-pinta que mantinha um cavanhaque impecável, e que vinha durante meses na cola de Suzy. Cassio caminhou para junto deles. Mal os havia cumprimentado e ouviu a seguinte pergunta de Suzy:

– Vamos dançar, Cassio?

Cassio não tinha o hábito. Jamais havia pisado numa discoteca e desconhecia qualquer passo. Seu primeiro impulso foi declinar do convite, mas lendo um pedido de socorro na face da moça, que pareceu-lhe desesperada para se livrar daqueles outros dois, disse sim. Romão, que era um branco de linhagem portuguesa, avermelhou-se indisfarçavelmente. Cassio não o notara, pusera a mão sobre os olhos e assim se deixou guiar para a pista.

– Eu não quero nem ver. Devo ser uma tragédia dançando.

Suzy puxou-lhe a outra mão, liberando seus olhos.

– Olha para mim. É só me acompanhar.

A moça se movia com graça. Jogava levemente os braços junto com os ombros e seguia pondo uma perna adiante da outra. Na primeira tentativa de imitá-la, Cassio pareceu robotizado. Mas logo pegou o ritmo, e não demorou para ganhar autonomia e começar a ensaiar passos inéditos. Suzy se deliciava de sua originalidade. No seu olhar via-se um desejo expresso. Os olhos de Romão não desgrudavam dos dois. Ao lado de Cassio, percebia as expansões de Suzy muito claramente. Mordia-se de ódio ao vê-la numa explosiva alegria apoiando-se ao peito dele, como se se desmanchasse. Embora simpatizasse com o rapaz, Romão enciumara-se dele desde que Suzy lhe confessara sua paixão, fazia já algumas semanas. Seus planos, desde então, incluíam fazê-la esquecer do moço e lhe voltar todo o seu desejo. Agora, no entanto, pressentia o malogro.

– Por que você me ignora? – perguntou Suzy aproximando do ouvido de Cassio seus lábios grossos.

Sem perder o rebolado, o rapaz assumiu um ar indagativo.

– Não me olha com essa cara, você sabe bem do que estou falando.

Cassio deu um giro, feito um bailarino loucão. Era notório que se furtava. Mesmo com um sorriso nos lábios, era um inquérito que se desenhava no olhar de Suzy.

– E você sabe como é o povo aqui do trabalho. Não desejo que fique falada. Por isso evito maiores aproximações.

– Não ligo para o que os outros possam falar.

– Não ligamos pra muitas coisas quando somos jovens. E mais tarde nos tornamos velhos colecionadores de arrependimentos.

Suzy achava a sua prosa exuberante, e não podia deixar de lhe conferir razão. Porém, na sua ambição por aquele corpo, estava nutrindo a determinação de partir para o tudo ou nada.

– Eu penso em você o tempo todo. Até quando estou com o meu marido. Você não perde nada ficando comigo.

De súbito, ainda quando Suzy lhe abria o coração, começou ele a fazer um gesto com a mão para que Romão viesse até ele.

– O que você tá fazendo? Ficou maluco!

– Espero que você um dia entenda. Ah, Romão, fica um pouco aqui com ela. Eu preciso ir beber alguma coisa. E vê se mexe esse popô!

Dando-lhe um tapa no traseiro, saiu de cena fugindo da pista com grande malabarismo. Estava encerrada a noite para ele.

Capítulo 15

Nunca mais Cora e Evelyn assomaram na casa de Cassio. As novidades que ele saberia a respeito das duas seriam através de sua mãe. Assim ficou ao corrente de que Cora havia sido classificada para ingressar numa Escola da Força Aérea e que dentro em breve estaria viajando para iniciar sua formação, e que Evelyn começara a trabalhar numa loja de roupas e agora era a namoradinha do dono. A primeira, de uma estampa comum, vencia na vida pelo esforço, já a segunda, favorecida pela divina roupagem, se valia de oportunismo. Essa foi a ideia que ficou dançando no cérebro de Cassio.

Um tanto inspirado pelo sucesso de Cora, e depois de se tornar um aficionado por romances que levantam importantes questões sociais, o rapazola pôs-se a sondar um curso de nível superior com o qual se identificasse. Achou a Sociologia. Tomar-lhe-iam muito tempo a espera e o estudo voltados para o vestibular, então escolheu pagar pela faculdade. O preço estava muito em conta. Inaugurou, então, sua vida de universitário. Ele ainda não sabia bem o que iria fazer depois de formado; se daria aulas, consultas, ou expedientes em alguma empresa. Norteava-se pela busca do conhecimento. Ingênuo e apaixonado, queria compreender a sociedade e aventar maneiras de melhorá-la. Muitas seriam suas frustrações nesse particular, tanto quanto àquelas concernentes aos assuntos do coração.

Se apenas o trabalho por si só o cansava, tanto mais exausto passou a se sentir com a inclusão dos estudos na sua rotina, que ficou assim: acordava às cinco e vinte para dar entrada no trabalho às sete; ao meio dia, antes de almoçar, corria à academia próxima à empresa para vinte minutos insanos de malhação, voltava, almoçava e retomava os afazeres até às dezessete horas, quando rumava para a faculdade, onde tinha de estar a contar das seis e quinze. Só perto da meia-noite é que chegava em casa. Com a mente ocupada a esse ponto, não se via com tempo para pensar em garotas. Aliás, na própria faculdade estava conhecendo algumas bastante interessantes, mas não ia atrás de aprofundar intimidades.

Fez amizade com uns caras mais velhos, todos já com uma profissão bem remunerada, como um tal Laertes, bombeiro fazia mais de uma década. Além do seu salário de bombeiro, Laertes ganhava um segundo, por administrar um parque florestal perto da faculdade. Quando explicou para Cassio que sua rotina de trabalho se resumia apenas ao parque, e que mesmo sem pisar no quartel do corpo de bombeiros, ao qual pertencia, continuava ganhando normalmente um salário como se permanecesse prestando lá o seu plantão, deu ao rapaz um vislumbre da grande farra que é feita com as verbas públicas. Ainda concluiu aconselhando-o a buscar concursos públicos.

Laertes era o tipo que se prevalecia de sua posição nas conquistas amorosas. Tinha dias em que aparecia em sua moto, outros em que buzinava com o seu sedam, e outros mais em que estacionava na frente da universidade a picape de trabalho. Não fazia segredo para Cassio das garotas da faculdade que já havia traçado. Embora às vezes se impressionasse com o excesso de atividade do sujeito, a bem da verdade, Cassio não lhe invejava. Nunca se sentira com vocação para aquele estilo de vida. Talvez quando estivesse com 45, como Laertes, quem sabe mudasse sua maneira de pensar e sentir? Isso, sim, chegou a lhe ocorrer, mas examinou-se, e concluiu que não tinha por que se preocupar. O futuro se constrói no presente, e ele reconhecia suas boas bases, cria nelas para sustentar por toda a vida seu edifício moral.

Enquanto a seu lado vários eram os que pareciam preocupados apenas com a obtenção do diploma, em nome da maior valorização salarial, Cassio, diversamente, se destacava pelo foco e a sede de conhecer. Aconteceu de no segundo semestre sua atenção se dividir entre o saber e uma aluna que se singularizava pelo rosto de linhas irretocáveis e o sinuoso do corpo. A bela moça já estava na casa dos trinta, era independente, tinha uma voz firme e um ar maduro cativante. Por ocasião de uma dinâmica em sala de aula feita em grupo, terminou se aproximando de Cassio e seus companheiros. Naíde era a sua graça. Havia nela qualquer coisa que suscitava o acanhamento de Cassio. Parecia-lhe ela muito pouco acessível antes e mesmo depois de se apresentarem durante a dinâmica.

No dia em que apresentou uma opinião, na sala de aula, pautada numa frase de Augusto Comte, tido como o pai da Sociologia, Cassio percebeu o brilho de admiração nos olhos de Naíde. A partir disso construiu sua estratégia de ataque. Levou no dia seguinte para ela o livro no qual lera a referida frase.

 – Acho que você vai se enriquecer muito com essa leitura – disse entregando-lhe a edição de capa dura.

Boa parte do seu salário agora era convertida em livros, mas só nos melhores.

– Poxa, obrigada! Posso te devolver quando?

– É um presente.

Depois desse dia achou que teriam algo em comum. Passou a perguntar em que pé andava a leitura, mas as respostas obtidas eram as mais evasivas. Naíde começou dizendo que estava doida para começar a ler e que provavelmente seria no próximo final de semana, depois passou a distanciar as datas, mencionando prioridades, até que por fim admitiu que só poderia se dedicar ao livro nas férias de fim de ano. Cassio teve então outro estalo. Anotou o e-mail da moça e passou a enviar-lhe os fichamentos que fazia de toda a bibliografia que deveria ser estudada naquele semestre. Assim sendo, em vez de enfrentar os vários capítulos dos livros que embasariam as questões das provas, sua colega limitar-se-ia à leitura de poucas páginas. Em outras palavras, o trabalho pesado ficava a cargo de Cassio, o qual entregava tudo já mastigado para Naíde. Isso fez sobrar a ela algum tempo, não obstante aquela mulher atraente não tocou no presente de Cassio. Este, no entanto, já não perguntava mais.

Numa tarde de quinta-feira do mês de outubro, ventos estabanados e um pé d’água gigantesco se abateram sobre vários pontos do estado, de tal forma que alagou ruas e esporeou postes e árvores, promovendo o corte de energia em algumas regiões. Depois das dezessete deu uma estiada, mas a faculdade teve de cancelar as atividades visto que o bairro inteiro atravessava um apagão. Cassio estava no ônibus, se dirigindo para lá, quando recebeu a ligação de Laertes.

– Escuta: as aulas de hoje foram canceladas.

– Tudo que você queria, hem?

– E eu vou é aproveitar. Eu preciso ir. Amanhã nos falamos.

Cassio imaginou que o garanhão se referisse a alguma garota. Puxou a cordinha do ônibus, desceu e tomou um outro para casa. No dia seguinte chegou atrasado à aula, mas encontrou lugar vazio junto do seu grupinho de sempre. O professor se estendia sobre muitos assuntos divertidos, e durante uma descontração e outra, em que a turma caía na rizada, Cassio observava Naíde, sentada a um canto mais à frente, virar-se para uma esticada de olho em sua direção. O jovem estufou-se ao perceber os olhares. No intervalo da aula, procurou se aproximar dela e entabular uma conversa. Estranhou a normalidade com que o tratou. Não trocaram muito mais que cinco palavras. Quando regressava para a sala, encontrou Laertes no corredor, conversando com um conhecido. Achegou-se deles. O conhecido teve de dar uma escapulida, deixando Cassio e Laertes a sós.

– E aí, qual foi a estória de ontem?

– Se eu te disser, tu não vai acreditar. Pela primeira vez uma mina daqui topou ir comigo ao meu escritório, lá no parque, ontem à noite. Fácil assim.

– Cara, você precisa começar a pensar com outra cabeça, ou vai acabar se estrepando.

– Não tem grilo. Entrei com os vidros fechados. Aquele insulfilme não deixa ver nada dentro. O porteiro conhece meu carro; basta o ver que já abre caminho. Afinal, eu sou ou não sou o chefe? Tenho que ter moral para alguma coisa.

– Mas ele faz mal. E se fosse outra pessoa dirigindo seu carro? Vamos supor que você fosse refém, que alguém estivesse te obrigando a dirigir até lá…

– Ah, não viaja! Não tem nada de importante lá, tirando alguns notebooks. Sabe quem foi a vítima dessa vez?

– Eu conheço?

– Disfarça. Não olha agora! Ela está vindo aí. Em cinco segundos vai passar por você.

Cassio esperou. Ouviu o barulho do tacão contra o piso. Sinal de que a pessoa que se aproximava usava salto alto. Laertes mudou o semblante ao mirá-la, sensualizando-se. Naíde apareceu no campo de visão de Cassio, dirigindo-se em direção à sala. Ele percebeu a troca de olhares entre os dois.

– Ela tá me devorando com os olhos a noite toda.

Foi só aí que Cassio se deu conta de que os olhares de Naíde não eram para ele, e sim para Laertes, que estivera sentado atrás.

– É uma mulheraça. Você é um cara de sorte – tentou Cassio salientar uma satisfação irreal. – E vocês…

– Sim, a gente transou em cima da minha mesa – disse escandalizando o amigo.

– OK! Sem esmiuçamento. Você é o cara! Agora, vamos entrar.

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