Arvorescer do amor – Capítulos 16, 17 e 18

Capítulo 16

Desde a noite da festa de fim de ano, Suzy estava mudada com Cassio. No início, evitava-o o mais que podia. Depois voltou a recorrer a seus préstimos quando deles necessitava. Admirava-se de como o bom-moço permanecia exemplar. Como se ela não tivesse se exposto absurdamente para ele e o constrangido. Mostrava-se a ela exatamente o mesmo. Sempre simpático e atencioso. Sem embargo de ainda o gostar, Suzy desencanou e passou a dar mais abertura para Romão. Este tinha uma namorada, que também trabalhava na empresa, porém se encontrava de licença maternidade. Romão acabara de ser pai, mas isso não punha freio na sua obstinação por Suzy. Contava para esta que se sentia muito infeliz na relação. Suzy o compreendia, pois compartilhava do mesmo espírito. Dormia e acordava ao lado de um homem a quem não tinha mais o mesmo amor. Embarcara muito cedo naquele romance, agora tinha outra cabeça e revia suas escolhas de vida.

Como ia para o trabalho e voltava para casa todos os dias de carona com o irmão, Suzy combinou com Romão um esquema. Marcou uma consulta médica às dez da manhã; além do álibi, ela ganharia do médico um atestado isentando-lhe de descontos no pagamento por atraso. O mais importante, no entanto, é que teria das sete às nove e meia para aproveitar com Romão. Este então pagou por uma suíte de motel, um que tinha situação a algumas quadras do consultório. Repetiram a aventura, e na quarta vez foram descobertos por força de um boato que começou a circular na empresa. Cassio percebeu a tensão no ar quando avistou Suzy cabisbaixa em sua cadeira. Por muito ter chorado tinha os olhos injetados. Romão também apareceu com a mesma cara. Antes do fim do expediente, Suzy veio se despedir dos colegas. Deu um abraço em Cassio e disse que adorou tê-lo conhecido.

Colhendo um pouco aqui e ali do que era sabido, inteirou-se de que, ao fim de uma grave briga, o marido de Suzy resolvera perdoar a traição. Sua condição, no entanto, foi que a moça fizesse o pedido de demissão. Diante da recusa inicial dela, na exaltação de um momento, ameaçou ir até a empresa e aguardar a saída do tal Romão para lhe dar um tiro. Houvera a intervenção dos pais da moça e do seu irmão, os quais puseram panos quentes, alegando que o traído só estava enraivecido, e com razão, posto ser apaixonado pela esposa, por quem não media esforços. Por fim incutiram na cabeça de Suzy que era sua obrigação salvar aquele casamento. Assim decidira ela fazer.

Posto ao corrente dos eventos, Cassio se deixou invadir por sentimentos ambíguos. Por um lado, o alívio por não ser ele o pivô da confusão; por outro, o incômodo por ter talvez tido uma mínima participação no estímulo da aventura extraconjugal.

Passado todo o auê, que coincidiu com a época em que Cassio amargava a ligeira desilusão com Naíde, o pobre rapaz, que vinha andando com a vida sentimental estanque por não fazer liquidação de si, resolveu se enfrascar numa temporada de experimentações. Seus colegas do setor havia muito que o intimavam a dar em cima das funcionárias de outras empresas com quem conversava ao telefone, frequentemente, em virtude das obrigações diárias. Para isso ele tinha que começar sendo menos formal. Um colega ia mais longe, recomendando que falasse sacanagens e logo de entrada propusesse um motel àquelas que lhe dessem alguma bola. Esse mesmo colega, certa feita, contraíra uma DST em um de seus casos e contaminara a própria esposa. O casamento sobreviveu por um triz, e sequer uma lição levava do ocorrido o adultero, visto que continuava dando suas escapadas e dispensando o uso de preservativos no mais das vezes. Cassio não pretendia ir tão longe.

A primeira a lhe dar trela foi uma vascaína, poucos anos mais velha e mãe solteira. Seu trabalho não ficava distante do de Cassio, e um shopping situava-se a meio caminho de ambos. Combinaram lá, no fim do expediente. Teve de matar aula para tanto. Tiveram depois outros três encontros, mas percebeu desde logo que a moça não o agradava dentro do esperado. Tinha o raciocínio lento, digamos assim. Vieram outras mais, não tantas, e aconteceu-lhe de uma ser menos interessante que a outra. Decidiu voltar a ser quem era. Encurtasse mais a régua com que media as moças, os seus companheiros martelavam, teria muito mais histórias para contar. Mas Cassio não queria histórias; queria uma grande história.

A falta de interesse que aquelas mulheres lhe causavam fez-lhe voltar a pensar em Rúbia. Afinal, descobriu que a figura da garota problemática ainda não se havia esvaziado de importância para ele. Por essa época, começava a fazer grande sucesso uma rede social denominada Orkult. Foi por meio dela que ele a achou, e mandou um oi. Logo estavam outra vez conversando, porém eram conversas através de texto, restritas à rede social, e cujos intervalos eram muito espaçados. Cassio procurava perceber por suas palavras se havia ela mudado. Percebeu apenas que parecia com problemas sérios.

Calhou de a mãe de Cassio estar às vésperas do seu segundo casamento, e achou o rapaz por bem convidar a moça. Ela queria muito vê-lo e se distrair, então aceitou. Pegou o endereço do salão de festas e no dia da celebração, quando a noite se fez e o céu estrelou, o irmão deu a ela uma carona até o local. Cassio a viu sair do carro dentro de um vestido vaporoso. Por muito que tentara exorcizar aquela antiga paixão, sentiu ainda uma ponta acender em seu peito.

– Você está um estouro! – expressou junto de um abraço estival, que marcava uma reconciliação em grande estilo, e expirando seu perfume, que imitava o frescor das flores.

– Você também tá gato! – ela disse depois que afastou-se um pouco, olhando-o dos pés à cabeça.

Cassio de fato estava muito bem composto. Vestia-se socialmente, envergando um belo terno preto. Seus sapatos de couro brilhavam à luz da entrada do salão.

Ele a conduziu para dentro cercando-a de galanteios. Lia-se nela qualquer coisa que o fez presumir que dessa vez o romance iria fermentar. E, tão certo quanto ao padrasto que ganharia naquela noite, ele não deixaria passar a oportunidade.

Capítulo 17

O salão estava tomado por parentes e conhecidos de Amparo. Cora, que viajara para passar o final de semana na casa da mãe, estava lá com esta. Sueli e a filha Evelyn também marcavam presença. Esta última se fazia acompanhar do namorado lojista, sujeito de uns quarenta anos notoriamente acima do peso. O irmão de Cassio dividia uma mesa com outros adolescentes. Garçons serviam os convidados. Uma música ambiente se fundia às conversações. Muitos olhares recaiam sobre Cassio e sua bela convidada. Aos olhos de todos, testemunhava-se ali duas pessoas que se estimam. Era fato curioso como aqueles dois, sempre que se reaproximavam, jamais conversavam sobre o que os houvera afastado. Cada reencontro era como virar uma nova página.

– Fala para mim quais preocupações são responsáveis por essa ruga na sua testa.

Rúbia lhe sorriu forçado.

– Não quero entediar você.

– Não conseguiria, mesmo que tentasse.

Houve uma profunda respiração por parte da pequena.

– Eu estou envolvida numa relação muito complicada, a mais complicada que já vivi.

Cassio não se surpreendeu com a confissão. Já a esperava. Desconfiava que 90% dos problemas de Rúbia fossem pertinentes ao coração. Também suspeitava que ficar com um e outro fosse um esporte para ela. Pensava, no entanto, que se lhe desse a chance de ter com ela um romance verdadeiro e de grande profundidade, sendo aquela para quem dedicaria seus escritos apaixonados, talvez conseguisse extinguir o espírito aventureiro da moça. E estimava que ela ainda o quisesse, do contrário não viria ter com ele, por muito que precisasse espraiar os aborrecimentos.

– Mais complicada do que a que tivemos?

– Mais, muito mais.

– Poxa, assim eu me sinto inferiorizado – brincou.

– Não se sinta. Recentemente estive acamada por causa de uma discussão.

– Ele não agride você, certo?

– Não, mas meu emocional fica muito abalado com as brigas.

– E vocês brigam com muita frequência?

– Direto! Essa pessoa com quem estou é muito possessiva.

– Para mim está clara a condição esquizofrênica dessa relação. Só há uma saída.

– Eu sei. Dei um basta nela ontem.

Tendo acabado de o dizer, Rúbia enfiou a mão na bolsa e mexeu no celular. Cassio viu que, antes de ela o pegar, estava ele com a tela e as teclas acesas.

– É a referida pessoa que está ligando?

– Me ligou o dia inteiro. Já atendi, exigi que parasse… não adianta. Essa deve ser a quinquagésima vez.

– Seria mais prudente desligar o aparelho. A não ser que tenha interesse em saber se ele vai alcançar a marca das cem ligações.

– Só está me ligando assim porque sabe que estou contigo. Eu disse que sairia com você esta noite.

– E ele me conhece?

– Sim, era com quem eu desabafava quando você e eu tínhamos problemas.

– Então é uma pessoa que você conhece há muito tempo?!

– É! Desde antes de nós dois nos conhecermos. Por isso acredito que seu amor seja verdadeiro. Ninguém conhece melhor a minha vida, e ainda assim arrisca me amar.

Cassio exorbitava de atenção.

– No meu ver esse amor que ele afirma ter por você é fictício. Desculpa! Ele deve realmente sentir alguma coisa, mas seu sentimento é mimetizado; isto é, se mostra disfarçado daquilo que quer parecer, imitando o que deveria ser. Quem tem verdadeiro amor na alma não procura escravizar o outro.

Rúbia gostou de lhe ouvir filosofar.

– Você tem razão! Você sempre tem razão!

Tomou o celular e o desligou.

– Não se fala mais nisso esta noite! É página virada – inteirou.

Mirou bem a face de Cassio e viu estampada nela a viva estimação que ele ainda lhe tinha. Depois disso a leveza embalou a conversa, que só cessou quando Amparo entrou no salão, bonita como jamais lhe haviam visto. Passara a tarde inteira sendo produzida para roubar as atenções, e conseguiu. Declarados marido e mulher, o casal passou de mesa em mesa cumprimentando os convidados e recebendo as felicitações. Quando Amparo conheceu Rúbia, trocaram elogios rasgados.

– Meu filho não exagerou quando disse que você é uma princesa.

– E a senhora está uma rainha.

Ao fim da festa, enquanto o salão era evacuado, do lado de fora, a um canto escuro, Cassio assistiu a uma Rúbia lânguida achegar-se dele com um jeito felino e prometer que ainda lhe daria um banho de gato. Vendo-a se desmanchando, estreitou-a nos braços. Com o seu corpo espremido ao dela, obedecendo ao impulso, trocaram beijos molhados e lascivos. A noite terminou com ele a levando em casa. O padrasto de Cassio bancara o chofer de ambos. Ao se despedir dele, Rúbia pediu que ligasse para ela, e lhe informou o atual telefone fixo. O rapaz voltou satisfeito para casa, ouvindo os comentários elogiosos do padrasto, que cultuava a bela figura da moça, quase a santificando. Em defesa do homem e de todos na festa que tiveram a mesma impressão, importa dizer que Rúbia, até mesmo no ver de Cassio, evolava uma aura de boa moça. Pensou nela pelo resto da noite, planejando uma viagem de fim de semana para eles, e durante todo o dia seguinte seu nome foi assunto na casa. De noite, pretendendo maior privacidade, Cassio saiu para lhe telefonar de um orelhão que ficava numa rua pouco movimentada. Percebeu-a um tanto aflita, na linha.

– É o mesmo problema? – perguntou preocupado.

– Na verdade, já está resolvido. Nós reatamos.

Houve um momento de silêncio.

– Rúbia, você não percebe que esse cara te faz mal?

– Não é ele! É ela?

Novo silêncio.

– O quê?

– Eu estou namorando uma garota. A Samira. Você sabe quem é.

Cassio guardou silêncio enquanto as feridas do seu coração perfuravam-se.

– Quero te pedir um imenso favor. Se gosta mesmo de mim, não me liga mais. Ela está aqui comigo agora, revoltada por eu estar falando com você. Estou cansada de brigas. Só quero tentar ser feliz. Entenda, por favor.

Depois de torturada pela ausência de resposta, ouviu-o finalmente dizer:

– Adeus!

Capítulo 18

No que encerrou a ligação, Rúbia voltou-se para Samira, que a fuzilava com os olhos.

– Ele não vai ligar mais.

– Assim eu espero.

Aproximou-se da esquentada, sentada a seu lado no sofá, tomou-lhe as mãos e cobrindo-as de beijo repetia:

– Sem brigar, meu amor.

– Jura para mim que nunca mais vai correr atrás dele?

– Juro que sou apenas sua.

Samira, que como Rúbia era garota de extremos, espraiou-se em juras de amor. Durava semanas sua insistência para revelarem a seus pais a situação de ambas. O namoro às escondidas, que acontecia na casa de Rúbia, a qual frequentemente ficava a sós, completava o terceiro mês. Às vezes arriscavam andar de mãos dadas. Uns adolescentes que passavam tempo demais na rua, quando as viam passando, lançavam insultos, e quando Rúbia estava sozinha, atiravam-lhe pedras. Mas a tudo isso e muito mais se diziam dispostas a suportar. Samira pressionava enfatizando que a principal razão de seus nervos estarem cada vez mais à flor da pele era a de ter que ficar se privando de revelar a qualquer que fosse o seu amor. Encorajada por esses discursos e pelo fato de estar empregada havia dois meses numa loja de artigos esportivos, o que lhe emprestava a sensação de independência, Rúbia decidiu ter com a mãe a tal conversa. Adivinhava que não seria uma conversa fácil, porém o resultado veio a ser mais fatídico do que poderia prever.

De início, quando ouviu o que tinha a filha a declarar, ficou a mulher como que estuporada em face de uma monstruosidade. Depois deu um estouro. Fora de si, mandou-a pôr um ponto final naquela história, e diante da recusa, estapeou o rosto da moça.

– Você acha que eu criei uma filha para viver na pouca vergonha, bem debaixo do meu nariz! – estridulou ela.

– Eu saio de casa, então! – reagiu a moça, as faces em brasa e o cabelo decomposto pela agressão.

Numa postura muito exaltada, a mulher deixou a sala e invadiu o quarto de Rúbia.

– Você vai deixar, sim. E é agora mesmo!

Começou a puxar, de dentro do armário da filha, numa grande violência, peças e mais peças de roupa, atirando-as sobre a cama.

– Estão aí as suas coisas. Arrume um outro lugar para você!

Mesmo chorosa, Rúbia estava determinada. Ligou para o irmão, que em poucos minutos chegou. Tentou este, em vão, conversar com a mãe. A mulher se sentia gravemente afrontada, não queria ter de voltar a olhar na cara da filha enquanto esta não lhe prometesse desfazer a relação. O rapaz pôs-se então a tentar persuadir a irmã:

– É isso mesmo que você quer, tem certeza? Se levar isso para a frente e sair de casa, eu digo que você até pode conseguir alcançar tudo que deseja na vida, você é esforçada, mas vai esbarrar em maiores dificuldades. Olhe para mim, que sou bem empregado e mesmo assim venho pegar dinheiro emprestado com a mãe. Ela faz de tudo por você, e essa mordomia você vai estar jogando fora.

– Eu já tomei minha decisão.

Por esse modo, o rapaz ajudou-a a levar, para o carro, as malas nas quais ela havia guardado suas coisas. Trouxe-a para a sua casa. Depois começaram a procurar uma quitinete para ela. Encontraram uma depois de três dias. Rúbia se mudou. Mais calma, sua mãe deu permissão para o filho levar para ela a mobília de seu antigo quarto. Quando já estava acomodada, Samira se mudou para morar com ela.

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