Arvorescer do amor – Capítulos 19, 20 e 21

Capítulo 19

“Olha, isso aí é coisa de mulher que passou desilusões tão sérias com o bicho-homem que resolveu mudar de time”, sentenciou o padrasto de Cassio, quando este participou à família o que lhe tinha dito Rúbia. Cassio discordou alegando que Rúbia, desde que a conhecera, era quem tratava os homens como fichinhas. A mãe do moço, crente fervorosa, escutou em silêncio a conversa e por fim intuiu que pudesse haver uma pomba-gira apossando-se da jovem.

“Vamos que ela esteja testando você”, insistiu o padrasto. “Acho que você deveria ir atrás, lutar por ela, mostrar que nem todos os homens são iguais”. Cassio comunicou que já tinha decido demais naquela história toda e que, com a última desconsideração, não tinha mais estômago para continuar. Bem entendido, Cassio não excomungava como a maioria da sociedade o amor entre iguais, portanto não era isso que lhe fazia nutrir uma raiva surda. O real motivo era só então perceber, como numa epifania, que Rúbia jogava com o seu grande apreço por ela. Em todos os desapontamentos anteriores, que levaram seus sentimentos a esfumaçaram-se um pouco por vez, encontrara forças para não expandir a mágoa. Dessa vez a pancada foi mais forte e a dor, muito maior.

Preso à rotina, o rapaz passou um tempo curtindo o espinho no peito, até que, em sua autocrítica, entendeu que estava vivendo os dias à espera daquele amor, porém agora tinha que tirar da cabeça aquela esperança. A princípio como uma espécie de escapismo, deixou-se invadir pela vontade de desaparecer no mundo, mas lembrou-se da boa sensação de se autoconhecer num passeio solitário. Quando assistiu, de passagem, na tevê a um duelo entre uma onça e um jacaré, estalou na sua cabeça uma ideia. Suas férias estavam muito próximas, então comprou passagens e fez reserva num hotel fazendo. Quando suas longas folgas se iniciaram, embarcou numa incrível viagem para o Pantanal mato-grossense, onde pôde espairecer a mente. O contato mais prolongado com a natureza selvagem redefiniu sua maneira de enxergar a vida. Dotado de nova alma, surpreendia-se com o quanto o íntimo de uma pessoa pode ser, em alguma medida, o espelho da paisagem à sua volta. Transformou em hábito viajar duas vezes ao ano. Sempre sozinho.

Um dia, de dentro do ônibus, viu Rúbia caminhando na calçada de mãos dadas com Samira. A cena não o estorvou. Tinha-se em alta estima, e agora podia ver isso com clareza. Dir-se-ia que vivia um caso de amor e descobertas consigo próprio. Nesse pé, dedicando-se à leitura dos clássicos, já que para ele os autores contemporâneos não passavam de escribas, e apenas conhecendo episódicos envolvimentos sentimentais, dois anos foram vencidos. Estava quase se formando um sociólogo e resolveu que se desligaria da empresa muito em breve. No entanto, um mês antes de dar seu aviso prévio, aconteceu-lhe o impensável. Ao aparecer no longo corredor que ia dar na sala do presidente da empresa, viu desenhar-se diante de seus olhos a figura de Rúbia. A moça estava de costas para ele, indo pelo corredor, e então entrou numa das portas laterais. Querendo abraçar a incredulidade, foi sondar com um dos colegas de setor, com quinze anos de firma, o que tinha na tal sala. Foi informado que ela fora disponibilizada para uns funcionários de uma nova empresa do grupo. Ali eles estavam fazendo o cadastramento em sistema das notas fiscais das mercadorias.

Acontece que a empresa em que Cassio trabalhava tratava-se de uma rede varejista de supermercados. O grupo que a controlava estava às vésperas de inaugurar, no quarteirão vizinho, um imenso supermercado atacadista. Uma pequena equipe, portanto, já trabalhava nos cadastros que deveriam estar finalizados no dia da inauguração, e dessa equipe Rúbia fazia parte. O reencontro era só uma questão de tempo.

Diante do havido, Cassio parafusou na ideia que talvez fosse o seu carma ter aquele diabo em figura de garota sempre retornando à sua vida. A ser verdade tal absurdo, restava-lhe aceitar serenamente, mas desta vez cuidaria de não voltar a extraviar seu coração. Prometeu isso, com todas as fibras, para si mesmo, a quem devia toda a lealdade do mundo.

Capítulo 20

Enquanto Rúbia saía cedo para trabalhar, Samira ficava em casa, dormindo até tarde. Quando Rúbia voltava cansada, encontrava a pia com louças e as panelas, no fogão, apenas com restos de comida. Samira passava o dia inteiro entretida com o notebook, não se impunha as obrigações do lar. Tomada pelo cansaço e o estresse, Rúbia se segurava para não estourar. Apenas advertia, pedia com jeito sua cooperação. Samira se desculpava, ou melhor, inventava desculpas. Dizia ter saído à procura de emprego, ou que fora à casa da mãe resolver algum problema e chegara pouco antes dela, não havendo tempo para começar a arrumar a casa e fazer a comida. Sobre este último ponto, o dinheiro de Rúbia não estava sendo o suficiente. Havia ganhado botijão e fogão do irmão, mas a despesa com o gás mês sim, mês não, a conta de luz e o aluguel não faziam sobrar muito para comprar mantimentos. Quando a despensa ficava vazia, Samira rumava para a casa dos pais, onde fazia as refeições, enquanto Rúbia, sozinha na quitinete, comia arroz com ketchup. E ainda tinha que aturar as crises de ciúme da outra, que durante estes episódios tentava quebrar tudo dentro de casa, tendo toda vez de ser contida.

Toda aquela paixão inicial esmoreceu em poucos meses e Rúbia passou a sentir que havia caído numa esparrela. Sacrificara sua situação confortável com a mãe por uma ilusão. Mas era apenas da parte de Rúbia que acontecia um esfriamento entre as duas moças. Samira seguia mais e mais possessiva, passou a agredir fisicamente a companheira. Tornava-se esta uma moça perrengue, recaindo em problemas de pressão, desenvolvendo a neurose hipocondríaca, e não raro tinha de se ausentar do trabalho a vista desses males. Quando chegou em casa arrasada e comunicando que havia sido demitida, não achou consolo nos braços de Samira. Esta apenas sibilou que logo acharia um novo emprego, e melhor. Deste dia em diante, Rúbia se calou e decidiu suportar com estoicismo todas as desconsiderações.

A pequena reserva financeira estava quase no fim, e consigo mesma veio a excogitar uma solução. Na realidade, ainda que mais emudecida, passando a ideia de aceitação, Rúbia estava ficando surtada. Queria evadir uma tragédia, que certamente ocorreria se continuasse vivendo aquele quadro. Lembrava diariamente as palavras amigas de Cassio que ouvira certa vez, de que a prática do amor inclui ter amor-próprio e não se deixar tiranizar. Até que num belo dia entendeu que era ocioso estar passando por tudo aquilo.

Já era noite feita quando saiu pela rua e foi bater na casa de sua mãe. Como chorou, implorando por perdão e para ser aceita de volta. Vendo o estado patético da filha, quase irreconhecível pela perca acentuada de peso e a pele esquálida contrapondo às escuras olheiras, a mulher lhe abriu as portas. Na manhã seguinte, Rúbia ouviu da mãe todas as novas condições para voltar a viver debaixo do seu teto. Retomou assim sua antiga vida e encerrou a relação de amor com Samira. A amizade, se é que se pode assim chamar o que sobrou entre ambas, Rúbia decidiu manter. Restabelecida, tornou a caçar trabalho. Até que leu num jornal o anúncio de contratação de um supermercado atacadista que seria aberto em algum lugar às margens da Avenida Brasil. Prontificou-se para uma das vagas, foi selecionada e junto de outras quatro moças encaminhada para a realização de cadastramentos. Logo na primeira semana, reconheceu Cassio na fila do refeitório da empresa na qual estava temporariamente lotada. Seu coração bateu forte, e por isso mesmo não teve coragem de abordá-lo. Falou dele para as colegas, que a estimularam a ir falar com o rapaz. Mas Rúbia manteve-se fora de seu campo de visão, lançando para ele olhares esquivos. Sentado em outra mesa com os colegas de setor, Cassio percebia com a visão periférica que Rúbia o encarava. Na sua segunda semana, no entanto, ao sair da sala para pegar uma maçã na mesinha móvel, deixada com lanches à disposição dos funcionários, a um canto no corredor, Rúbia deparou-se com Cassio. Este acabava de pegar um pedaço de bolo embrulhado em papel alumínio e se retirava, foi quando deu de rosto com Rúbia.

– Oi – ela disse entre tímida e alegre.

– Rúbia, é você!  – esgarçou a boca num imenso sorriso e abriu uns grandes olhos, fingindo surpresa.

Rúbia sentiu-se aliviada com sua boa reação.

– Pois é, eu agora estou trabalhando aqui, não sabia?

– Não, que legal. Poxa, é bom te ver. Olha, a minha repartição fica ali, naquela porta, no início do corredor.

– Legal.

– A gente se fala.

– Tchau!

Capítulo 21

Agora que já se havia anunciado e não visto em Cassio um esperado vestígio de ódio, pelo contrário, o bom rapaz ainda demonstrava-lhe a mesma finura, Rúbia sentiu-se mais confiante para ir acercando-se dele. Ainda sem jeito, pediu que uma colega fosse à repartição dele perguntar-lhe se não gostaria de dar uma escapada para tomar um café expresso. O destino era a loja de conveniências do posto de gasolina ao lado da empresa. Cassio estava no seu descanso de horário de almoço, ainda tinha uns dez minutos livres, mas esnobou seu convite alegando alguma obrigação. No dia seguinte pediu ela a uma outra colega que o fosse chamar para tomarem sorvete, e novamente recebeu uma educada recusa. No terceiro dia a moça o viu chegar ao refeitório, almoçar, como sempre apressado, e quando ia se retirando resolveu chamar por ele. Cassio fez-se de surdo e continuou indo para a escada de saída. Rúbia gritou seu nome de novo, vindo atrás dele. Desta vez não pôde continuar fingindo, todos no refeitório haviam ouvido.

– Rúbia, tudo bem? – disse virando-se.

– Que droga, você me fez berrar.

– Eu já te disse que você é uma garota que estronda aonde quer que chegue.

Rúbia manteve a cara fechada mesmo diante da face risonha esfuziante de Cassio.

– O mesmo bobão de sempre.

Deixaram o refeitório.

– Fica um pouco comigo lá embaixo.

– Fico, sim.

Havia uns bancos de madeira ao abrigo do sol no pátio da empresa. Ocuparam um deles e começaram falando sobre o calor que andava fazendo. Com grande interesse, Rúbia pressentia normalidade na fala de Cassio, e este se esforçava por não demonstrar um tom falso na voz.

– Saudades de você – Rúbia deixou sair.

Cassio tratou de disfarçar seu estranhamento diante da declaração. Mais ainda, tentou esconder haver percebido, naquele instante, que Rúbia não mais figurava a ternura para ele. Soube de pronto, por alguma clarividência benvinda, que a sombra daquela relação tão desejada havia chegado ao limite de seu esgarçamento.

– E a vida, como anda? – atalhou ele.

Rúbia pensou em perguntar se também sentira a sua falta, mas lembrou-se do quão mal havia se comportado com ele da última vez.

– Andou complicada. Mas agora estou conseguindo colocar ela em ordem.

– E como vão as coisas com a Samira?

– Já não estamos juntas vai fazer um ano – disse-lhe como que presa às evocações do frustrante relacionamento.

Cassio também já pressentira esta resposta. Adivinhava-se em Rúbia alguma vontade de recomeço, seus gestos pareceram-lhe os de quem se prepara para jogar o último trunfo.

– Então está solteira? Cuidado que os homens daqui… e as mulheres; são um perigo só.

– Não estou disponível, nem para eles nem para elas.

A conversa não saiu dos rodeios. Depois dela, a vontade de Cassio era manter-se afastado o mais que pudesse, mas a moça persistia na aproximação. Começou a viver atrás da esmola de sua atenção. Sempre espreitando uma chance de passar alguns minutos com ele. Tirando do armário seus vestidos decotados, conseguiu fazê-lo aquiescer a uma saidinha para um café expresso e também para um sorvete. Cassio surpreendeu-se querendo crer no amadurecimento de Rúbia, mas tinha viva na mente a lembrança de uma declaração de sua parte, na qual dizia jamais se arrepender das coisas um dia feitas, apenas das que não conseguia fazer. À época, ele replicara que uma pessoa sem arrependimentos é alguém que não reconhece de verdade os erros, que não sabe voltar atrás nem se desculpar pelo mal que causa aos outros. Rúbia treplicara admitindo que errava, porém suas faltas só prejudicavam a ela própria e a ninguém mais. Vendo-a agora, parecia conseguir enxergá-la amargando suas penas. Todavia, mesmo guardando um grande pesar, Rúbia não lhe pediu perdão, por muito que encontrasse oportunidades. Tinha por princípio passar uma borracha nas burradas calando acerca do assunto, e como Cassio já estava muito esperto naquela conduta, mantinha-se em estado de atenção.

Veio de Rúbia o convite para pegarem um cinema. “Pelos velhos tempos”, ela disse. Cassio aceitou. Rúbia partiu decidida a jogar todo o seu charme para o rapaz. Mas aquele moço, antes translúcido, agora lhe expunha um lado esotérico, feito uma esfinge a ser decifrada. Enganou-se ao supor que Cassio cairia de amores por ela naquela noite. Antes, doeu-lhe bastante ver o quanto ele esfriou com o tempo e a distância. Não que o moço lhe estivesse dando pouca atenção, pelo contrário, ouvia-a com olhar escrutinador. Na intimidade de seu coração, vendo-se ser enredado nos sortilégios da garota, ele dizia para si mesmo que tentaria desta vez um envolvimento mais escrupuloso.

Sentados ali, na mesa de um restaurante dentro do shopping, ela exteriorizou-se com grande sentimento, enquanto ele era outra vez espicaçado pelo ferrão do desejo que Rúbia conseguia lhe despertar. Saíram de mãos dadas para o cinema. Já na sala de exibição, ela o acariciava com extrema ternura, e em meio aos beijos, ele transparecia-se extremado de amores por ela.

– Você me ama, não ama? – pergunta-lhe ela de repente.

– Quem sabe o que é o amor? – respondeu vago, sem esboçar surpresa por ouvir pela primeira vez aquele tipo de coisa dos lábios de Rúbia.

– Sei que me ama. Sinto bem aqui – ela disse guiando a mão dele até seu peito.

Sentimentos contraditórios passeavam pela alma do rapaz.

A paixão, que era fogo quase extinto, reacendeu-se uma vez mais. Mas o amor em si Cassio sentia ter-se esvaziado. E mesmo que fosse insuflado com a reaproximação, dessa vez, pelo seu amor não iria estraçalhar-se. Cassio acumulava muitas promessas feitas a si mesmo, lutando para manter firme a disposição de cumpri-las.

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