Pensando a vida, a política e a economia em tempos de pandemia

Ser cidadão do mundo, e não mais só deste ou daquele país, é a fatalidade a que todos estamos sujeitos. Status moderno, embora remonte às Grandes Navegações dos europeus, que uma vez ao mar, entre os séculos XV e XVI, se aventuram a colonizar novas terras. Estenderam seu domínio pautados no “conhecimento científico” da época, o qual considerava as faixas temperadas mais propícias à formação do homem de intelecto superior, sendo as capacidades dos outros sujeitos, habitantes da faixa tropical, insuficientes ao próprio progresso. Assim, em que pese o genocídio de milhões de nativos, entre as monarquias renascentistas europeias convencionou-se como missão salvadora levar o processo civilizatório até os primitivos dos trópicos, e de quebra minerar todo ouro e prata encontrados em suas terras como forma de pagamento pelo serviço prestado. Mercantilismo vai, industrialismo vem, e com a mundialização capitalista um mercado universal é finalmente materializado, já no mundo pós-Guerra Fria liberto do socialismo soviético. E agora cá estamos nós, integrados em rede com outras culturas e economias, colhendo o pior e o melhor que disso provém! Os donos do poder, à sombra das instituições governamentais e supranacionais, fazendo valer seus interesses corporativistas, organizaram a seu bel-prazer o espaço geográfico mundial para funcionar organicamente e dar conta da circulação internacional de mercadorias e mão-de-obra, de tal maneira que mesmo um surto numa província eventualmente pode tornar todo o cenário global num único ambiente pandêmico.

O avanço do capitalismo, promovido por seus agentes hegemônicos, nos apresentou o colonialismo, depois o imperialismo e, por fim, a globalização, fase em que as barreiras geográficas são postas abaixo pelas intrincadas redes de transporte e de comunicação.

Porém, ao arrepio do palco globalista ora armado, a nova partícula viral, responsável já por milhares de mortes, provou-se uma força capaz de atomizar a sociedade global. Nas maiores economias do mundo, controle de fronteira e quarentena da população viraram palavras de ordem. E mesmo no Brasil, país caloroso, o povo antes chamado acolhedor e cordial, agora um tanto embrutecido pela polarização política e xenofóbico por conta do empobrecimento por que passou nos últimos anos, pela primeira vez precisa cumprir normas de distanciamento social. Certamente esta é a pior forma de nos sentirmos integrados ao restante do mundo.

Quando, a partir de dezembro de 2019, o surto de Covid-19, antes mesmo de receber esta nomenclatura, elevou a mortandade no segundo maior país do oriente, a reação, demorada na avaliação de alguns, e evidentemente relutante, veio, contudo, de modo radical. Fábricas e lojas fechadas, aulas e demais eventos de aglomeração suspensos, voos cancelados, assim o dragão chinês atuou e apenas agora, em março de 2020, o caos social advindo da já reconhecida pandemia começa a perder força no país. A disciplina dos orientais e seu senso de coletividade foram, mais uma vez, um exemplo, tendo-se o que foi testemunhado também no Japão, na Coreia do Sul, em Taiwan e Singapura, resultando na contensão do vírus muito antes de se atingir o pior cenário.

Na Itália, por outro lado, a negligência inicial do governo somada à posterior indiferença do povo, o qual prosseguiu levando normalmente a vida quando a pandemia era apenas uma possibilidade, resultou no que o país é agora, neste fim de março de 2020: uma arena de contágio que já contabiliza mais mortes motivadas pela doença do que a própria China, primeiro epicentro da infecção, posto que cede aos Estados Unidos, onde a quantidade de casos confirmados já é a maior. Compare o caso das duas grandes potências marítimas à época das Grandes Navegações: A Espanha postergou as medidas cabíveis, diversamente do vizinho Portugal. O resultado é que enquanto este último conta com um pequeno número de casos fácil de gerenciar, o primeiro já sofre mais baixas que os chineses, indo logo atrás da Itália.

Líderes de grandes nações, que de início diminuíram a importância do novo coronavírus, acusando a grande mídia de superdimensionar o problema, agora reconsideram suas declarações descabidas e irresponsáveis de outrora. Bom, nem todos, pois o chefe do executivo, aqui no Brasil, opinioso como gosta de ser, e preocupado mais com a saúde dos mercados, como se a vida humana não fosse o maior bem público, ainda segue tentando sustentar sua “tese” inicial de que a Covid-19 não é muito mais que uma gripe comum, apostando na sorte em vez de na ciência e não se importando em transformar o amanhã de muitos brasileiros numa loteria. Faz até lembrar do outro chefe do executivo, seu antecessor, que havia dito que a crise financeira de 2008 chegaria ao Brasil como uma marolinha. Sim, ela chegou, e o esforço para fazê-la continuar como tal desequilibrou as contas públicas e endividou as famílias de maneira tal que o resultado foi a instauração de um longo período de recessão, do qual ainda não nos recuperamos completamente. E o quadro tende a piorar, pois mesmo depois que a primeira onda de contágios pelo coronavírus passar, e ela promete ser grande no Brasil, os não contaminados retornarão às ruas sem os devidos anticorpos e, ao compartilharem espaços com aqueles já imunizados que hospedam o tal vírus, farão desencadear a segunda onda, que pode ser mais mortífera que a primeira, como mostrou a epidemia da gripe espanhola do início do século XX.

Sim, o caso é demasiadamente grave, embora soem vozes dissonantes aqui e acolá. Evocam epidemias anteriores com taxas de letalidade maiores, mas não fazem o exercício de imaginar que a letalidade do coronavírus é ainda baixa por força das medidas de contenção. É simples: se o direito de ir e vir fosse restaurado nos principais centros afetados, a infecção, em pouquíssimo tempo, atingiria a cifra de milhões, os quais a um tempo só procurariam os serviços de saúde e, uma vez sem conseguir atendimento pelo colapso do sistema, teriam mais chances de vir à óbito. A questão agora, que desafia a engenharia política de cada país, é saber minorar o estrago enquanto não nos for dada a ansiada vacina.

Diante de toda desordem instaurada no mundo pela Covid-19, cabem algumas indagações, visto que o impacto que a doença causa, claramente, não se reflete só sobre a saúde pública. Será que as companhias aéreas irão começar a quebrar nos próximos meses? Bares, restaurantes, hotéis, comércios de rua voltarão a abrir as portas em quanto tempo? Por quanto mais durarão as empresas de turismo? E as demais empresas? Se elas perdem receita, cortam postos de trabalho. Então, em quanto os números do desemprego irão aumentar? Devemos também lembrar os trabalhadores informais e microempreendedores, que sem o movimento habitual ficam descapitalizados e, portanto, deixam de pagar as contas, o que nos remete à outra pergunta: o quanto subirá o número de inadimplentes? Embora o pequeno percentual de afortunados concentre a maior parte da riqueza, são os mais pobres que sustentam o ciclo de consumo por serem em número elevadíssimo, no Brasil e no mundo; e se perdem sua fonte de renda retardam ou mesmo inviabilizam a recuperação econômica dos mercados, ou melhor, do grande mercado global.

Sob o império de tais circunstâncias assistimos à uma grande crise sanitária se desdobrando em crise de produção e de consumo; em outras palavras, numa nova crise econômica mundial. É nessas horas que a sociedade civil de cada país conclama por grandes estadistas, versados na ciência de governar, conhecedores da arte de guiar nações. Que tenham a clareza de exatamente onde fazer alocação de recursos.

Quanto a isso, com efeito, o contra-ataque das grandes economias já começou, sob a liderança norte-americana, a qual começa agora a imprimir 2 trilhões de dólares, o maior pacote anticrise da história. Dado o modo pelo qual a política é influenciada pelo sistema capitalista, este movimento agressivo dos Estados soberanos já era aguardado, a dúvida é se o fizeram mais preocupados em proteger a população mais vulnerável ou o sistema financeiro em que muitos tubarões apostam um vultoso capital especulativo. Aliás, é uma pergunta que deveríamos nos refazer sempre: o Estado está a serviço de todos igualmente ou, em sociedades capitalistas que se equilibram num sistema de relação de classes, os mais abastados são melhor atendidos pelas instâncias de governo? Claro que a pergunta é retórica. Afinal, ainda é possível falarmos em plena soberania do Estado-nação quando a influência do grande capital financeiro “desnacionalizado” aprisiona-o dentro de seu grande jogo de poder? Qualquer resposta soaria temerária.

Para os que estudam e sabem observar, tem se mostrado de certa forma muito revelador o atual cenário sombrio, em que todo o mundo globalizado e capitalista, atingido em cheio por forte retração econômica, se reúne no enfrentamento à pandemia. É que neoliberais confessos agora avalizam medidas keynesianistas como políticas anticíclicas, ou seja, justamente aqueles que defendem a ideia de um Estado mínimo, que pouco intervenha na economia, diante da atual conjuntura admitem que apenas o Estado tem o poder de interromper o ciclo econômico de quebradeira geral que prosseguirá se o sistema capitalista for deixado à própria sorte. Será que ainda existe alguma dúvida de que a natureza apropriadora do capitalismo, que evoca dominação e poder, substituindo por competitividade absoluta a solidariedade humanitária, precisa da regulação do Estado? Ou melhor, como querem os anarcocapitalistas, sem o Estado para fazer o papel de proteger os nossos direitos, estaríamos melhor numa situação como a que agora se desenrola?

Há quem defenda como o melhor dos mundos o capitalismo, que em sua última fase globalista reduziu o planeta a uma aldeia global. Acusam de socialistas os que ousam levantar críticas por demais contundentes. Penso que ambos os sistemas, socialista e capitalista, sejam igualmente falhos, só que o capitalismo, vantajosamente, se vale da premissa da garantia das liberdades individuais de livre-iniciativa e acena com a possibilidade de qualquer um construir riquezas, desde que trabalhe duro. Se for preguiçoso, morre de fome, pois não é justo tirar de quem tem porque conquistou para dar a quem não tem porque se acomodou. Isso parece lógico, e por sê-lo é facilmente defensável por qualquer um capaz de decorar o discurso já gasto. Porém, havemos de lembrar que a lógica não é uma boa régua moral. Afinal, não é a falta dela que leva países à guerra. Cada nação beligerante, na figura de seus dirigentes, conduz ao campo de batalha sua própria justificativa intelectual, calcada em interesses de controle territorial e ganhos futuros de ordem monetária. Não é diferente com a globalização econômica, que obedece à lógica da produção e da acumulação.

Para deixar claro, não defendo aqui a volta ao primitivismo. A vida pós-moderna da sociedade onde nos inserimos deve avançar enquanto lida com as próprias distorções socioeconômicas, salvo, é claro, se algum cataclismo oriundo dos grandes impactos decorrentes da excessiva exploração das corporações transnacionais sobre a natureza acometer a humanidade, forçando-a a recomeçar, desta vez mais harmonizada com o meio ambiente que sempre lhe garantirá todo o necessário se poupado da sua ganância.

Gosto de usufruir da conectividade que me permite os dispositivos modernos. Faz crer que o mundo realmente está menor, dando-nos a impressão de que pode ser melhor compreendido. Afinal, evoluímos dos carros de boi para jatos comerciais, em parte por mérito do demonizado sistema capitalista. Se posso, ao utilizar um avião, o mesmo instrumento que ajudou a disseminar o coronavírus pelo planeta, ir à Europa num único dia e voltar no outro, porque iria preferir gastar mais de um mês apenas numa viagem de ida, como acontecia antes com embarcações a vela, nos primórdios do capitalismo? Este mesmo capitalismo que, em sua gênese, estimulou o trabalho escravo, posteriormente impôs a necessidade do trabalho assalariado. No entanto, foi a não aceitação dos trabalhadores às condições aviltantes às quais eram expostos que garantiu a eles direitos trabalhistas. O capitalismo globalista que permitiu a muitos ascensão social é o mesmo que condena à exclusão milhões de outros seres humanos, que sem ajuda humanitária e políticas de auxílio morreriam no abandono.

Verdade é que o capitalismo não é bom nem mau, bem como o socialismo em si mesmo. Bom ou mau é o uso que deles se faz. Nossa necessidade de oportunidades e de recursos torna imperativo escolher um sistema político-econômico para seguir tocando a vida, e somente um cego maniqueísta não reconheceria que a história ressente provou que o capitalismo, com sua lei de livre-comércio, é o mais eficiente em prover afluência material. O problema, repito, não está no capitalismo, está no ser humano que abre mão da própria alma para incorporar o espírito capitalista. E vemos isso quando governantes afoitos demonstram maior disposição em arriscar a vida de seus patrícios a bloquear a atividade econômica por alguns meses, prejudicando o crescimento de grandes conglomerados financeiros que concentram a maior parte da riqueza do planeta. Ou quando ecoam vozes lamentando mais pela queda das Bolsas mundo afora do que pelos milhares de caixões que, por força da nova enfermidade epidêmica, abruptamente encerraram histórias de vida únicas, que poderiam ser a minha ou a sua.

O imaginário social sairá transformado desta experiência universal, que, por convulsionar prolongadamente a relativa ordem do cotidiano, para os brasileiros traz toda uma carga de ineditismo. Para alguns, será a desculpa perfeita para sucumbir ao vírus do nacionalismo. Para outros, o momento de recomeçar com ainda mais contundência a epidemia de ofensas àqueles que pensam a política e a economia de maneira diversa à sua. Paciência! De todo modo, espero que ocorra da parte do coletivo, que deve estar preparado para desafios futuros, maior compromisso com a vida pública do Estado. Que as pessoas entendam que, como atores sociais que são, reúnem a força necessária para impulsionar transformações sociais, bem como econômicas, desde que decidam assumir o comando das mudanças, via manifestações de anseios populares e escolhas refletidas quanto aos ocupantes das cadeiras parlamentares e o morador do Palácio do Planalto.

2 comentários sobre “Pensando a vida, a política e a economia em tempos de pandemia

  1. Ricardo Badú, o contexto inspirado e apartidário do teu texto é considerado um solidário aprendizado, para quem quiser realmente refletir imparcialmente. Eu gostei do que li e sei que aprendi e aprenderei o que tens mais a ensinar quando eu reler tua publicação imparcial. Parabéns, rapaz! Um abração fraternal!

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