Saindo da aldeia

Em time que está ganhando não se mexe. Este é um chavão do mundo futebolístico que costumamos transpor para a vida prática, dado que o que importa é a certeza da vitória. Você então precisa investir no que traz lucro, lutar por segurança, e com tudo isso posto deve despender esforços apenas para manter o terreno conquistado. Eu pensava assim. E por muito tempo meus planos para o futuro objetivavam uma vida confortável com estabilidade financeira a fim de atender à grande necessidade de proteção externa que nos aprisiona. Até que, em algum momento, comecei a formar juízo acerca de meus velhos conceitos e abri um diálogo lento e demorado comigo mesmo, no qual ficou claro que a escravidão do desejo de segurança me mantinha impotente em várias áreas da minha vida.

Ao preferir leituras mais densas e aprender a ser leitor de verdade com os clássicos, fazia pouco caso dos autores contemporâneos e passava longe de livros de autoajuda e romances água com açúcar. Sujeitava-me a assistir a todo e qualquer longa-metragem de terror, comédia e ação, mas desprezava os dramas e os filmes cults. Mesmo insatisfeito com a empresa e sufocado pela rotina de tarefas, me conservei por anos fazendo o mesmo trabalho tedioso, sem sequer me aventurar numa entrevista nem enviar currículo para processos seletivos com vistas ao preenchimento de um posto de trabalho diferente do que eu já ocupava. Comia sempre do mesmo, não me permitia novos sabores, não me abria a pratos exóticas. Eliminava certas atividades, a exemplo da meditação, por simplesmente não creditar a elas bons resultados e não me ver enquadrado entre seus praticantes. E evitava contato com pessoas estranhas e diferentes, escondendo-me atrás do mesmo grupo de amigos que conhecera na adolescência.

Foi neste setor que, deliberadamente, comecei minhas mudanças. Por ter crescido dentro de igreja pentecostal, fui ensinado a prejulgar certas seitas, como a dos Testemunhas de Jeová. Via-os como um bando de tresloucados com quem o contato não aproveitaria a mim em nada. Sendo esse o caso, consenti nas visitas semanais de uma dupla dessas que vive a nos bater à porta, e dos encontros novas amizades surgiram. Não me converti à religião dos novos amigos, assim como até hoje não sou da mesma opinião de muitos dos antigos amigos. Mas, com este passo, o que obtive foi maior do que me capacitar para lidar com pessoas que entendem a vida de uma maneira diferente da minha. Compreendi com a prática que a superação não está em lidar com as certezas, e o enfrentamento do desconhecido, ao mesmo tempo que derruba nossa segurança externa, nos faz menos inseguros por dentro.

Queremos a garantia de percorrer apenas os terrenos conhecidos, e nos desviamos das áreas não-mapeadas sem levar em conta que o caminho que leva à maior realização e ao desenvolvimento pode passar justamente pelas regiões mais obscuras. Pense em grandes inventores como Thomas Edson e Nikola Tesla; teóricos como Isaac Newton e Albert Einstein; exploradores como Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral. Se estes homens não procurassem sair de suas respectivas zonas de conforto para tentarem explorar o limiar das potencialidades humanas, não só teriam tido uma vida medíocre, muito provavelmente, como poderiam ter chegado ao fim dela amargurados e desiludidos por não contarem com nenhuma grande realização. Pior, toda a civilização não teria conhecido os enormes progressos que assistimos nos últimos séculos, se homens como eles se acovardassem com os fracassos em vez de se apostarem em exceder os próprios limites.

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